Por Fabio Gomes
O diretor José Renato, no programa do espetáculo, definiu Preso na Rede como uma "farsa popular". É a denominação perfeita para esta peça, em cartaz no Teatro Popular do SESI (São Paulo) de 23 de setembro a 11 de dezembro de 2005. Principalmente se o espectador tivesse a felicidade de vê-la numa quinta (eu tive: assisti-a em 10 de novembro), dia em que o teatro lotava, devido à distribuição gratuita de senhas. Este é o tipo de peça em que o trabalho dos atores se alimenta da reação do público, perdendo muito se a casa estiver às moscas.
O enredo do texto, de autoria do inglês Ray Cooney e traduzido por Marisa Murray, é bastante semelhante ao argumento que constituía boa parte do repertório do teatro popular brasileiro até a década de 1950: a comédia de equívocos. O protagonista, João (Flávio Galvão, excelente), se desdobra para que não seja descoberta sua condição de bígamo: ele mantém duas famílias, uma com Júlia (Elaine Cristina), com quem teve o filho Beto (Paulo Vilela), e outra com Bárbara (Sônia Lima, em boa atuação), casamento que gerou Lucinha (Ana Paula Grande). Para esconder uma família da outra, João se vale de sua profissão: como taxista, ele pode estar sempre às voltas com plantões noturnos e precisando atender clientes que precisariam de seu serviço com o máximo de urgência... Assim, João se equilibra nessa vida de mentiras com pleno êxito, mesmo vivendo com uma família no bairro paulistano de Pinheiros e com outra na quase vizinha Lapa (a presença no texto de referências de São Paulo contribuíram para a forte identificação do público com a montagem). Até que...
...um belo dia, Lucinha conhece Beto numa sala de bate-papo na internet. O design do programa do espetáculo induz o espectador a julgar que a "rede" do título se refere à web, mas a platéia não demora a perceber que João cada vez mais se enreda é nas mentiras de que se vale a todo o custo para que, com o previsível namoro entre seus filhos, Bárbara não venha a descobrir Júlia e vice-versa. Inicialmente, João consegue que seu inquilino Oscar (Francarlos Reis) o ajude nesta ingrata tarefa. Só que o protagonista não contava com a coincidência de ver seu mundo prestes a desabar no exato dia em que Oscar iria à praia com seu pai (Henrique César, em impagável participação especial). Com o adiamento da viagem, Oscar precisa trazer seu pai, que nada sabe sobre a confusão, para a casa onde João vive com Júlia. Na rede de mentiras que, para preservar João, Oscar se vê forçado a tecer, ele chega a declarar para Júlia que está apaixonado por... Beto.
O primeiro ato se estrutura todo na luta de João para evitar ser descoberto e na iminência, a todo momento, de sua máscara cair. (O público praticamente não parou de rir nessa parte.) Já no segundo ato, em que a todo momento fica mais claro a João que ele será desmascarado, basta saber quando, o texto se torna um pouco mais dramático - há aqui um certo abuso do recurso de trancar Júlia e Lucinha em determinados ambientes (cozinha, banheiro etc.) fora da vista do público. Ah, e o final (que eu não vou contar...) é surpreendente!
Se o modelo do texto é bastante antigo, o uso que ele faz de um recurso contemporâneo como o celular (além da referência à internet no título) torna a ação bastante ágil. Colabora ainda para a agilidade o cenário de Renato Scripilliti (foto),

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