Por Fabio Gomes
"A obra de arte como espaço de reflexão
e não como retrato
de um gueto, isolado, à parte do contexto geral da sociedade."
(Jessé Oliveira)
O diretor teatral Jessé Oliveira escreveu a frase acima a propósito de justificar a escolha do texto Transegun, de Cuti, como primeira peça montada pelo grupo CaixaPreta, criado em 2002 a partir da reunião de artistas negros atuantes em Porto Alegre. A frase, que consta nos textos assinados pelo diretor nos programas de Transegun e da montagem seguinte - Hamlet Sincrético (2005) -, parece servir de lema também para outras atividades do grupo, como o evento que assinalou seu quinto aniversário: o 2º Encontro de Arte de Matriz Africana, realizado de 12 a 16 de dezembro de 2007 no Teatro de Arena da capital gaúcha (apenas no último dia as atividades aconteceram na sala atualmente utilizada pelo grupo no Hospital Psiquiátrico São Pedro).
A abertura ao diálogo e o convite à reflexão ficaram expressos nas diversas atividades que compuseram a programação do Encontro, tanto nos trabalhos dos próprios integrantes do CaixaPreta (como o monólogo Madrugada, me Proteja, de Cuti, interpretado no sábado, 15, pelo ator Sílvio Ramão) quanto dos convidados (a exemplo da única atração musical do Encontro, o show Epahei!, da cantora e compositora Karine Cunha, na quinta, 13). Em Madrugada..., Sílvio vive um negro de alta classe média que, julgando-se inalcançável pela insegurança que (infelizmente) tem sido a marca das noites nas grandes cidades, é humilhado durante um assalto. Já o show de Karine se apoiou nas canções em homenagem a diversos orixás que estruturam seu segundo CD, Epahei!, lançado em agosto, além de composições de seu trabalho anterior, Fluida (2005), em que este caminho já era apontado, completando-se o repertório do espetáculo com músicas como "Canto de Xangô" (Baden Powell - Vinicius de Moraes).
Um destaque do Encontro foi a apresentação na sexta, 14, da peça Taba-Taba, texto do francês Bernard Koltès, que marca a estréia da atriz Renata de Lélis na direção (antes, ela chegara a dividir com Luciane Panisson em 2004 a direção de seu texto Salomé Decapitada; a própria Renata me confirmou: dirigir-se num monólogo e dirigir atores são realizações artísticas bem distintas). Juliano Barros e Dedy Ricardo estavam excelentes como o casal de irmãos que tem uma convivência das mais complexas. Ela (Dedy) vive a dizer que se envergonha de que o irmão não tenha uma vida amorosa ou ao menos social, dedicando todo seu tempo ao conserto de uma velha motocicleta que, vê-se logo, jamais sairá do quintal da casa de ambos. O conflito se instala quando o irmão (Juliano) a questiona por, assim como ele, ela resumir sua vida à esfera doméstica. As atuações passam na medida certa a sugestão de incesto que permeia esta relação. Destaque-se ainda a feliz cenografia, que colocou em cena uma moto formada de peças de variadas origens - incluindo uma cadeira escolar no lugar do selim - todas unidas por arames.
O ponto baixo da programação, a meu ver, foi a inclusão de uma leitura dramática do texto de Antonio Callado Uma Rede para Iemanjá. É certo, o tema do texto - um pai cujo filho desapareceu no mar confunde com Iemanjá uma mulher prestes a dar à luz - estava afinado com a proposta do Encontro. A questão é o texto em si, e o modo como ele foi apresentado na quinta, 13. No tocante ao texto: esta peça se ressente do fato de a ação caminhar mais pelo que os personagens dizem do que pelo que fazem, além do constante emprego de falas muito longas (os "bifes" da gíria teatral) - características comuns em autores que, como Callado, dedicaram-se basicamente ao romance. Muitas vezes, esses aspectos são contornados na montagem, o que desta vez não chegou a ocorrer. Na interpretação de Uma Rede para Iemanjá, predominou a "fala branca" (ou seja, sem atentar à emoção e/ou entonação sugeridas nas rubricas) e a pouca movimentação do elenco - apenas alguns atores seguiram as marcações sugeridas no texto. A direção desta leitura não estava creditada na programação divulgada, razão pela qual deixo de comentá-la.
Outra leitura dramática abriu na noite de quarta, 12, a programação do Encontro: a do texto Sortilégio Negro, de Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN), referência histórica assumida pelo CaixaPreta já na época do lançamento de Transegun. (Não assisti esta leitura, bem como não acompanhei o recital de poemas de Oliveira Silveira que completou a programação de abertura.)
A trajetória de Abdias e do TEN foram alguns dos temas abordados na única palestra do Encontro, proferida pela atriz Vera Lopes. Uma das fundadoras do CaixaPreta, Vera deixou claro que não consegue entender porque alguns consideram a arte européia como "superior", dando como exemplo que o teatro grego surgiu a partir de ritos - em que animais sacrificados eram oferecidos ao deus Dionysos - muito semelhantes às oferendas dos cultos afro-brasileiros para os orixás. Outro fato digno de espanto levantado por Vera: não consta nenhuma imagem do teatro africano num dos raros livros brasileiros que falam do assunto - História do Teatro (1978), de Nélson Araújo.
Uma pena que pouquíssimas pessoas tenham acompanhado na tarde do sábado, 15, tanto a palestra de Vera, quanto a estréia do documentário Caixa-Preta, dirigido por Júlio Ferreira. Houve problemas técnicos: o equipamento do Arena não conseguia ler a mídia em que o filme estava gravado, e foi necessário buscar solução fora do teatro. Isso acabou atrasando cerca de hora e meia palestra e filme. Pode-se dizer que quem esperou foi recompensado tanto com a relevante palestra quanto com o eficiente documentário. Nele, Ferreira traça um bom panorama da trajetória do grupo, intercalando depoimentos de vários de seus integrantes com cenas de Hamlet Sincrético.
Reservar para o final do 2º Encontro de Arte de Matriz Africana a apresentação de Hamlet Sincrético foi uma excelente forma de encerrar o evento com chave de ouro. A peça dirigida por Jessé Oliveira é primorosa; a montagem relê o clássico a partir de uma estética negra, com elementos da cultura afro-brasileira ajudando a contar a história imortalizada por William Shakespeare. É notável o equilíbrio que Jessé conseguiu ao mesclar todos estes elementos. Cada personagem encarna um tipo ou um mito da cultura negra, em especial das religiões afro-brasileiras: Hamlet é Xangô; o rei Cláudio, Zé Pelintra; e Polônio, um ex-babalorixá que se tornou pastor evangélico. A música ao vivo (o próprio elenco manda ver em cânticos de umbanda, sambas, hip-hop, ladainhas de capoeira e até cantos evangélicos), além de ajudar a contar a história, torna o nível de comunicação do espetáculo com a platéia algo digno de nota. Na primeira parte o recurso à música a todo instante chega a cansar um pouco; isso fica melhor dosado da metade pro fim.
Outro grande trunfo de Hamlet Sincrético é a irreverência aplicada à história do príncipe da Dinamarca. É certo, muitas versões levam a obra de Shakespeare a um patamar de erudição em que ele jamais se colocou (afinal, começou representando em tabernas, como lembrou no debate após a peça o secretário municipal de Cultura, Sergius Gonzaga); Jessé, ao se permitir maior liberdade no tratamento do material shakespeareano, nos presenteia com momentos que divertem e fazem pensar. Cito um, talvez o melhor: ao ler uma carta de Hamlet dirigida a Ofélia, Polônio usa o elogio do príncipe à alvura dos seios da amada como indício de loucura, pois, como diz, "nunca vi ninguém mais preta que minha filha".
No já citado debate que se seguiu à peça, houve um momento melancólico, quando Sílvio Ramão revelou que a apresentação do domingo, 16, pode ter sido a última vez que Hamlet Sincrético foi feito no espaço para o qual foi concebido - uma sala que o CaixaPreta mantém há alguns anos dentro do Hospital Psiquiátrico São Pedro. O ator acrescentou que a peça já foi montada em outros lugares, sempre com ótima receptividade pelo público, mas, para o grupo, espetáculo e local estão fortemente associados.
A possibilidade de o grupo ter que buscar outro local para sua sede surgiu no debate porque estava marcada para dali a dois dias a votação na Assembléia Legislativa de lei criando no Rio Grande do Sul as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). Na hipótese do Hospital Psiquiátrico São Pedro deixar de ser administrado diretamente pelo Estado, o novo controlador poderia requisitar ao CaixaPreta e aos outros grupos teatrais que liberem o espaço que atualmente ocupam. O que se pode dizer por enquanto é que a lei foi aprovada no dia 18 de dezembro, prevendo que a parceria relativa a cada órgão deverá ser precedida de estudo específico.
Para encerrar, duas boas notícias. A primeira foi dada por Jessé no debate: o CaixaPreta estréia em maio de 2008 sua terceira montagem, Antígona.Br. A outra é que, de certa forma, o o 2º Encontro de Arte de Matriz Africana continua - você pode visitar até o final de fevereiro a exposição Artistas Negros de Porto Alegre, com imagens clicadas pelo fotógrafo Bruno Gomes e que estão na administração do Teatro de Arena - o melhor período para visitação é nos dias de semana (menos segunda), à tarde.
Copyright © 2007 Brasileirinho Produções Ltda.