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FESTIVAL VARADOURO 2008:
DIVERSIDADE MUSICAL NO ACRE

Por Fabio Gomes

 

Varadouro é uma palavra do vocabulário acreano que significa um caminho alternativo. Denominando originalmente estradas secundárias que liguem pontos de uma estrada principal (o que no Rio Grande do Sul chamaríamos estradas vicinais, ou mais popularmente, de chão batido), o termo hoje é amplamente usado para qualificar iniciativas que se apresentem com um diferencial em relação ao que já exista. Nos anos 1970, tinha este nome um jornal alternativo editado na capital acreana, nos moldes do carioca Pasquim (inclusive tendo em comum com este eventuais colaborações do cartunista Henfil). Agora, no século 21, foi Varadouro o nome escolhido para o festival de música independente promovido pelo Catraia Coletivo de Cultura, que teve sua quarta edição na Arena da Floresta (Rio Branco), nos dias 26 e 27 de setembro de 2008.

A proposta do Catraia neste ano foi abrir mais o leque musical do festival, bastante voltado para o rock nos três primeiros anos. Mesmo que o programa Almanaque Aquiry (TV Aldeia), do dia 26, tenha citado o Varadouro como uma das boas opções de rock na cidade para aquele final de semana, a palavra "rock" nem constava do slogan de um flyer que circulava pela cidade, anunciando o evento - De gaúchos a acreanos, do cordel ao hip hop todo mundo se encontra aqui. A diversidade musical esteve mais presente no dia 27; na primeira noite, o som predominante na Arena foi mesmo o do rock - mas, a bem da verdade, um rock que não teria lugar num festival como o Planeta Atlântida, realizado anualmente na praia de Atlântida (RS). No Planeta, promovido pelo grupo de comunicação RBS, afiliado à Rede Globo, se apresentam principalmente bandas do Sudeste cujas músicas tocam na maioria das rádios e TVs comerciais do Brasil. Já a edição deste ano do Varadouro trouxe ao Acre ao menos uma banda de cada região brasileira, além de duas atrações internacionais - os bolivianos do Atajo e os peruanos do Bareto.

Primeira noite

Do dia 26, destaco as apresentações de Yaconawas, Pata de Elefante, Los Porongas e Atajo.

Os paraenses do La Pupuña iniciaram bem o show, apresentando sua mistura de rock, guitarrada, pop, merengue, samba e surf music. No decorrer da apresentação, porém, pesou contra o grupo a falta de uma característica essencial para a guitarrada - o domínio virtuosístico dos instrumentos -, o que certamente a banda poderá atingir com o tempo. O show foi quase todo instrumental, mas teve músicas cantadas em inglês e em português (incluindo "16 Toneladas", do Funk Como Le Gusta, em que o roadie do grupo foi chamado ao palco para dançar).

Ainda no primeiro dia, tocaram a banda tocantinense Boddah Di Ciro e as acreanas Tk7doisI (cuja vocalista destaco como uma das melhores do festival), Blush Azul (com um ótimo guitarrista, responsável por alguns dos melhores riffs do Varadouro) e Survive. Todas na linha-padrão da noite (rock-com-pitadas-hard-e-guitarras-distorcidas), exceto a metaleira Survive, cujo peso na pegada sonora chegou a estragar um pedal. Esta foi uma das bandas que mais animou o público do dia 26, além de ter uma atração à parte: a coreografia capilar do vocalista e do baixista. Donos de longas cabeleiras, eles passaram boa parte do show girando-as, tanto em sentido horário quanto no anti-horário; o baterista, com cabelo bem mais curto (mal chega à nuca), ensaia os passos dos companheiros de grupo, balançando a cabeça no compasso de suas baquetas como quem diz "sim".

O som, na maior parte do tempo bom, apresentou alguns problemas, em especial no segundo palco, o que ficava à direita de quem chegava à Arena pela entrada principal. O show de Los Porongas teve microfonia, enquanto outra banda acreana, Marlton, enfrentou dificuldades para mostrar seu rock com influências heavy e progressivas (com destaque às mudanças de andamento em meio a várias das composições). No palco principal, os paulistas dos Ecos Falsos também tiveram microfonia a atrapalhar seu show que, em linhas gerais, seguiu a tônica da noite, com o lamentável acréscimo da falta de harmonização entre as vozes do grupo. A banda brincou com o fato de ser a única representante do Sudeste, anunciando várias músicas como "foi esta que nos deixou milionários", ou "a partir daí começou nossa escalada para o sucesso". Ao final da noite, com o público escasseando, o som do palco começou a ter interferência da sonorização da entrevista coletiva das bandas (a barraca das coletivas estava a poucos metros do palco principal e na linha do som do palco lateral); bastavam Los Porongas ou Atajo fazerem uma pausa para se ouvir, alto, a coletiva. Na segunda noite, embora a barraca seguisse no mesmo local, o som das entrevistas interferiu bem menos. (Diga-se de passagem, a localização da barraca também não favorecia em nada o trabalho dos jornalistas credenciados nem ajudava os fãs que quisessem conversar com as bandas.) Outra interferência, bem mais freqüente, era a da passagem de som - a idéia de ter dois palcos era de que enquanto uma banda tocasse num, o som da banda seguinte era passado no outro, para evitar longos tempos de espera. Na maior parte do tempo, com efeito, evitou-se atrasos (com exceção dos primeiros shows de cada noite - foram 13 minutos entre o final do show de Tk7doisI e o início do da Boddah Di Ciro), mas o vazamento do som do palco em preparação foi uma questão insolúvel ao longo do festival.

Segunda noite

A idéia do Catraia de realizar um festival com diversas tendências musicais foi coroada de êxito no segundo dia do Varadouro. Os destaques foram muitos: Calango Smith, Cabocrioulo, Diego de Moraes e o Sindicato, Linha Dura, Bareto e Cordel do Fogo Encantado.

Poucas bandas seguiram a linha-padrão da noite de abertura (rock-com-pitadas-hard-e-guitarras-distorcidas), caso da rondoniense Hey, Hey, Hey e das acreanas Filomedusa e Nicles (esta, com um excelente guitarrista, boas letras na linha existencial, expressando as inquietações dos jovens, e toques de punk e progressivo na parte musical; é pena que a interpretação do vocalista, sem grandes preocupações com a dicção, comprometa o resultado final). A também acreana Silver Cry foi a única representante no segundo dia do heavy metal, estilo ao qual dá toques melódicos, criando uma eficaz junção com seus vocais em inglês.

A diversidade da segunda noite só não foi maior devido à ausência do grupo indígena acreano Ashaninka, que faria um ritual antes de se apresentar. Sua vinda, porém, foi suspensa devido à enfermidade de um dos integrantes do grupo, que optou então por permanecer em sua aldeia.

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