Por Reuben da Cunha
O
evento que, em 1960, abriu a chamada Era dos Festivais, foi, na verdade, uma festa.
A I Festa da Música Popular Brasileira. Tito Fleury, seu idealizador, se
inspiraria no Festival di San Remo, importante festival italiano que conhecera
em 1959.
O título de Festa se mostrou bastante apropriado, já
que a apresentação das canções (21 selecionadas, dentre
400 inscritas) foi apenas parte do evento. Realizada no Guarujá, elegante
balneário paulista, a festa duraria quatro dias. Paralelamente às
apresentações musicais acontecia o concurso de beleza Miss Luzes
da Cidade, conhecida realização do jornal Última Hora,
a quem Tito primeiro apresentou a idéia do festival. Como já organizava
o concurso de beleza, Josimar Moreira, diretor da sucursal paulistana do jornal,
propôs a união entre música popular e mulher bonita. Interessado
na transmissão televisiva do evento, Tito procuraria então Paulo
Machado de Carvalho, da TV Record (após ter sido recusado pela TV Paulista),
que toparia a parceria.
Antes seriam realizadas quatro eliminatórias
para selecionar as 21 canções, ainda na capital paulista. Duas no
Clube dos Artistas e Amigos da Arte de São Paulo (ou, simplesmente, Clubinho
- importante reduto de artistas e jornalistas da época) e duas no Teatro
Record. Por alguma razão, e apesar do acordado, apenas as duas eliminatórias
realizadas no Teatro Record seriam televisionadas. Nem sequer a final seria exibida
pela TV.
Nem tanto graças à qualidade das canções
(não havia nenhum compositor "famoso" entre os selecionados),
talvez bem mais pelos atributos físicos das modelos, o evento lotou o Grande
Hotel de la Plage, no Guarujá.
As 21 canções finalistas
(entre sambas, sambas-canção, marchas-rancho, congadas, canções
e baiões) começaram a ser ouvidas pela comissão julgadora
por volta da 1h da manhã do dia 3 de dezembro de 1960. Após a audição,
como o resultado demorava a sair, os compositores resolveram se divertir, improvisando
e batucando nas mesas. Às 5h30 da manhã foi anunciada a canção
vencedora, do pianista Newton Mendonça (parceiro de Tom Jobim em "Desafinado"),
defendida por Roberto Amaral, a "Canção do Pescador".
No entanto, quem recebeu o prêmio Noel de Ouro no Guarujá foi sua
esposa, Cirene Mendonça. Ou melhor, sua viúva. Newton falecera alguns
dias antes, vítima de um enfarte fulminante.
A I Festa da Música Popular Brasileira, transmitida apenas pelas rádios Record e Panamericana, e ofuscada pelo desfile de modelos, teve seu encerramento marcado por uma partida de futebol, na manhã do dia 4 de dezembro de 1960, um domingo.
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