Por Leandro Lopes
A única certeza é que se trata de uma espécie de amuleto. Ele está para os integrantes do grupo, como a fita do Senhor do Bonfim está para os baianos. Se fosse traduzida para o folclore brasileiro, a banda ganharia o nome de Trevo de Quatro Folhas, mas como a inspiração veio de algum lugar do mundo (só não lhe perguntem qual!), a banda chama-se: Nono Osso.
Antes dos comentários questionadores, eu explico, ou melhor, eles explicam: "Esse nome esquisito surgiu após a sugestão de um amigo, que comentou conosco que o nono osso do rabo do gato é considerado um amuleto em algum lugar. Além disso, nos atraiu a idéia do duplo sentido, tanto é que nosso símbolo é um nó em um osso. Sempre que nos perguntam como nos chamamos, brincamos com as sonoridades de NONO OSSO e NÓ-NO-OSSO!"
Se a perspicácia na escolha do nome lhe atrai, espere para ouvir o que eles são capazes de fazer ao emaranhar melodia e letra. Agora PARE! Antes de continuar nossa conversa, click aqui: www.tramavirtual.com.br/artista.jsp?id=34936 e ouça "Desatando Nós". Eu lhe espero, pode ir...
Então, ouviu? Quando tive a oportunidade de conhecer o som dessa turma, tive a impressão de degustar uma miscigenação de algarismos. É uma soma, uma subtração, várias multiplicações e divisões de idéias, agrupadas com uma melodia enriquecedora. É quase uma equação musical. Eles afirmam que a lista de influências é maior que da previdência social: "de Ratos de Porão a Tom Jobim, passando por toda psicodélica e criatividade de Beatles, Led Zeppelin e Frank Zappa". Mas posso afirmar que suas linhas inspiradoras estão rabiscadas em suas outras profissões. Não entendeu? Então veja:

No vocal: a psicóloga Juliana Brandão; no violão e voz: o médico Guto Temponi; na guitarra: o físico Serginho Starling; no baixo: o engenheiro Alberto De Conti; na bateria: o dono de bar (quer lugar mais inspirador?) Danilo Temponi.
LEANDRO LOPES - Vocês têm outras profissões e, ao contrário de muitos músicos que adorariam abandonar a primeira carreira, vocês parecem fazer questão de exercer o lado musical e a outra profissão também.
NONO OSSO - De um modo geral, penso que escolhemos as duas ocupações por gostarmos de ambas, não dando nem pra definir qual é a primeira e qual é a segunda profissão... E devemos continuar exercendo as duas, enquanto isso for possível, porque sabemos que se a música nos levar "mais longe" teremos que optar, porque será impossível conciliar uma agenda artística muito cheia de viagens e shows com a agenda de "gente normal".
LEANDRO LOPES - Todos vocês têm participações importantes nas composições. Isso é algo planejado, ou a inspiração chega, escreve, depois um mostra ao outro?
NONO OSSO - Nada é planejado em termos de quem fará o quê. Quem fez, fez, e se a turma toda aprova, é aquilo que vinga. Às vezes um faz uma letra e oferece a outro. Outras vezes, alguém traz uma música ou um pedaço de música e os outros vão fazendo a letra, partes de melodia e, de vez em quando, alguém faz tudo (música e letra) e os outros só bolam o arranjo.
LEANDRO LOPES - A questão de ser denominada uma banda sem rótulo já não é, de certa forma, um rótulo?
NONO OSSO - É... pois é... se correr o bicho pega, se ficar o bicho come...
LEANDRO LOPES - Para vocês, o que é ter ou não rótulo?
NONO OSSO - Ter um rótulo pode significar ficar preso a algo, um estilo, um ritmo, um tipo de som apenas. E não queremos nada disso. Queremos ser livres com a nossa música! E podermos mudar, mesclar, transformar.
LEANDRO LOPES - Já classificaram vocês como uma banda neotropicalista. Vocês concordam?
NONO OSSO - Temos pontos em comum com os tropicalistas, até porque fazem parte de nossas influências musicais, mas isso já seria um rótulo também. Além disto, em nossos shows só tocamos músicas em português, o que nos torna bem nacionalistas... por enquanto!
LEANDRO LOPES - A letra de "Marvada Vida" tem um quê de crítica, misturado com um tom caipira. O que vocês vêem entre uma coisa e outra?
NONO OSSO - "Marvada Vida" faz, de fato, uma contundente e irônica crítica àqueles que abusam da inocência alheia através da exploração da fé. A combinação de estilos musicais nela presente (hardcore x sertão) traça um imediato paralelo entre os binômios urbano/rural, explorador/explorado, ricos/pobres, espertos/inocentes, que são elementos vivos em nosso dia-a-dia. Além disso, trombone, trompete e um coro à Tim Tones antecedendo o refrão dão um certo ar de zombaria à música, misturando trágico e cômico de forma um tanto cruel.
LEANDRO LOPES - Na letra de "Desatando Nós" vocês falam em mudanças e até deixam um ponto de reflexão ao questionarem: "isso é bom ou ruim". Que mudança seria essa?
NONO OSSO - Hoje vivemos em um mundo de constantes avanços tecnológicos, onde o consumismo está sempre em primeiro lugar e onde existe uma crescente demanda por informação. Nada é simples como outrora e você mal aprendeu uma coisa nova e já existe a versão 2.0 daquilo. Acho que fica difícil avaliar agora se todas estas mudanças em nosso dia a dia serão para o bem ou para o mal, pois falta distanciamento. Se isto é bom ou ruim...
LEANDRO LOPES - O primeiro CD é aberto e fechado com uma letra que diz: "eu só quero ver a coisa derreter". O que vocês querem dizer com isso?
NONO OSSO - Acho que "eu só quero ver a coisa derreter" tem um pouco a ver com aquela história do circo pegando fogo, de a gente estar aqui para confundir, e não para explicar, como dizia Chacrinha. Analisando em retrospecto, vendo tudo o que fizemos desde o início do Nono Osso, acho que esta frase resume muito bem nossa proposta: fundir, reciclar, transformar, criar. Com fogo ou não.
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