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KARINE CUNHA: PRIMEIROS ACORDES

Por Fabio Gomes

 

Na frase que encerra o texto de apresentação de seu primeiro CD, Fluida (2005), a cantora-compositora Karine Cunha escreveu:

"E dedico também in memorian a meus avós João e Ênio pelo gene musical."

Devido à natural diferença de idade, Karine não chegou a acompanhar o trabalho musical dos dois, que tocavam como amadores. João, o avô materno, gaiteiro em bailes de CTGs (Centros de Tradições Gaúchas), nem mesmo tinha sua própria gaita. Já ao avô paterno, Ênio, ela atribui uma influência maior (os depoimentos de Karine apresentados neste texto foram gravados por ocasião da entrevista que realizamos com ela em Porto Alegre, a 11 de julho de 2005):

- Ele me dizia que tocava violino no coreto da praça. Tocava de ouvido, não sabia ler, né? Ele tinha uma guitarra também (numa foto do encarte do CD, Karine aparece empunhando a guitarra do avô). Um tio meu pegou essa guitarra e começou a aprender sozinho. O meu pai aprendeu também alguma coisa de violão, tocou bateria também. Esse meu tio que me deu meu primeiro violão.

Desta forma, já aos 10 anos, logo após aprender os dois primeiros acordes do violão, Karine começou a compor.

- Eu fazia música pro sol, pra lua, pro meu cachorro, eu me lembro que tinha um caderninho vermelho e anotava... e eram musiquinhas assim, tinha lá tipo 5 ou 6 linhas. Depois na pré-adolescência comecei a ter pilhas e pilhas de cadernos, muitas coisas eram só poesia, que eu só escrevia, e outras eu musicava. Só que eu nunca tive muito apoio, da família ou das pessoas que escutavam, ninguém me incentivava. Muito pelo contrário.

A mesma dificuldade ela enfrentou ao se decidir pela carreira musical:

- Na verdade eu nunca disse que era o que eu queria fazer, mas eles já viram e se apavoraram. A família sempre acha bonito tu (cantares) ali no churrasco, no aniversário, tal. Agora quando tu tens que sair de noite pra tocar... E eles que pagavam a aula de música, até que não precisou mais pagar, no caso. Eles tinham esse papel de estimular e deixar aquilo ali acontecer e na verdade foram deixando não querendo...

A família não precisou mais pagar as aulas a partir de 1997, quando Karine começou o Curso de Licenciatura em Educação Artística - Habilitação Música do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 2002 como violonista. Ainda em 1997, montou um repertório de MPB e pop rock, passando a se apresentar em locais como a Casa de Cultura Mário Quintana e o Centro Municipal de Cultura e a participar de projetos como o Roda Som e o Arte nos Trilhos. No segundo semestre da faculdade, recebeu um convite de um colega, Aurélio Edler, para fazer parte da Orquestra de Mantras Rudraksha.

- O Rudraksha foi o primeiro grupo que eu participei, então tinha toda essa questão de trabalhar em grupo, e era uma coisa diferente do que eu tava acostumada a fazer: pegar mantras e fazer música com aquilo. Era uma coisa nova pra todo mundo e no início era assim uma viagem, por quê? Porque um dia ele (Aurélio) dava aquele tema e todo mundo improvisava, modificava tudo ali, os ensaios eram a tarde inteira assim. Então tinha essa coisa que não era profissional mas estava buscando alguma coisa. Até porque era a primeira coisa que ele tava fazendo também. Então teve essa experiência no começo, de pegar uma proposta e trabalhar nela, até chegar no disco.

A proposta artística do Rudraksha era bastante inovadora, até fica difícil comparar com outro grupo. A princípio, Karine pensou que seria algo na linha new age de Enya, música para meditação. O som do Rudraksha, no entanto, acabou sendo uma mistura da contribuição de cada integrante: Karlo Kulpa trouxe a liberdade jazzística do improviso, Mário Falcão entrou com elementos de música brasileira... Karine, após participar da gravação do CD do grupo, em 1998, buscou novos rumos:

- Eu comecei a ver que não era bem aquele caminho que eu queria, eu queria ter autonomia, cantar música brasileira, e lá pelas tantas não deu mais pra conciliar.

No mesmo ano, ela viu no mural da faculdade um anúncio: o Vocal D'Quina pra Lua buscava uma mezzo-soprano. Uma das pessoas escolhidas para integrar o grupo não conseguira conciliar os horários e abriu a vaga. Karine então ligou e marcou um horário:

- Fui fazer uma entrevista, na verdade na entrevista já tinha que sair cantando. Me botaram uma partitura na minha frente e eu tinha que sair cantando, e era um arranjo superdifícil, eu fiquei apavorada. Saí deprimida de lá, achei: "Bom, né, nunca mais ninguém vai me chamar pra fazer nada". Mas claro, depois elas se deram conta que foi demais. Cada um tem um ritmo de aprender. A Cláudia (Braga) e a Regina (Machado) vinham do (Vocal) Mandrialis, elas tinham um outro pique.

Mesmo se tratando de um grupo vocal, havia poucos pontos em comum entre a proposta do D'Quina e os corais de que ela já havia participado:

- Era completamente diferente o que elas propunham, eram linhas que tinham que ser trabalhadas, como "Maria, Maria" (Milton Nascimento - Fernando Brant), um arranjo supercomplicado, que não era de grupo, era uma coisa meio de solista. São cinco solistas, naquele arranjo é assim, né? Eu achava que eu nunca ia conseguir. Mas aí eu vi que não, que estudando eu podia. E elas decerto viram que eu tinha potencial.

A forma de trabalhar o repertório no D'Quina também era novidade para Karine:

- Eu nunca tinha feito um trabalho daquela maneira. O Rudraksha era um outro processo, completamente diferente. As músicas do Rudraksha a gente é que tava fazendo, elas não existiam.

Sua participação no grupo, que foi até maio de 2002 e incluiu a participação na gravação do CD Maria Vai com as Outras, despertou-lhe a atenção para duas questões fundamentais. A primeira, o arranjo:

- Eu me apaixonei pela questão do arranjo, até fiz alguns, porque antes do espetáculo a gente fez várias apresentações, pra pegar o pique já do palco, né? Então a gente pegou um repertório que tinha Noel Rosa, várias coisas, e alguns arranjos fui eu que fiz. Então eu adorei fazer aquilo, porque eu fazia já pensando que aquela voz era tal colega que ia cantar, isso foi uma coisa que eu fiz que até então eu nunca tinha feito. Quando eu tava gravando o Fluida, eu não usava os termos técnicos, nem sabia, mas eu tinha já aquele arranjo na minha cabeça. Eu tenho até vontade de fazer um curso de arranjo, por que não? Então de repente eu podia ter ido por um outro lado, mas tendo em vista o que eu já tinha feito na composição. Hoje eu consigo ver que é uma coisa muito forte em mim, sempre foi. E quando eu vi que isso era um diferencial, eu comecei a me ver assim como intérprete.

Pois é, a segunda descoberta de Karine no D'Quina foi de sua própria voz:

- Eu acho que todo mundo passa por isso, fazer um monte de coisa até encontrar. Eu nunca tinha tido um trabalho assim. Tinha cantado em coral, mas nunca tinha feito aula de canto, ou preparado a voz pro trabalho. O contato que eu tinha com a voz era do início, quando eu comecei a estudar violão. Eu cantava nas aulas, mas não tinha nenhuma orientação. Cantava nas apresentações da escola, depois cantei em alguns corais. O Rudraksha não tinha uma preparação vocal, a gente simplesmente cantava, né? Então o D'Quina me deu muito isso, de ouvir minha voz, de ver que eu tinha um potencial como cantora. Depois eu fiz aula com algumas pessoas, agora fiz com a Adriana Deffenti, ela me indicou uma fonoaudióloga, então a gente vai conhecendo as pessoas, vai amadurecendo, enfim vai vendo o que existe e por aí vai. Tem muita gente na cidade, no país, que vai ter aquele repertório que tu tens que cantar senão tu não és cantor, e isso me incomoda. Porque eu acho que as pessoas têm que ser o que elas são. Eu sei que tem muita gente que acha que eu não sou uma boa cantora, mas eu não tô nem aí, porque eu decidi ir pelos caminhos dessa composição e de mostrar isso que eu sei que ninguém vai fazer igual.

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