Por Tharita Chimenez
"A gente corre na BR-3 e a gente morre..." entra na voz de Toni Tornado entre rodopios da performance black power. "Eu também quero mocotó" lota o palco do Maracanãzinho com Erlon Chaves e os 40 membros da Banda Veneno. Além dos aplausos, as duas canções são seguidas por um rastro de racismo que evidencia o objetivo do V Festival Internacional da Canção: a imagem de felicidade do povo brasileiro feliz seria veiculada ao mundo.
O ano é 1970; Emílio Médici tornara-se presidente no ano anterior e a TV Globo predomina afinada com a euforia do "milagre econômico" e do tri da Copa do Mundo de Futebol. Em cores, a transmissão da gente que canta e é feliz é mandada à Europa e aos Estados Unidos.O V FIC começa em outubro com cinco vagas para São Paulo e 35 vagas para o estado da Guanabara, cuja Secretaria de Turismo arca com um quarto do patrocínio, ficando três quartos com a Globo. O festival também monta uma editora própria, a Cannes (componente futura da Som Livre), a fim de receber uma parcela pelo futuro resultado das canções.
- O Brasil volta a cantar para o mundo! - anuncia Hilton Gomes ao lado de Arlete Sales, do narrador de futebol Geraldo José de Almeida e de Maria Cláudia. Um júri de compositores, cantores e jornalistas e outro popular - sete pessoas escolhidas da platéia e Chacrinha como presidente. A primeira eliminatória mostra de cara o que será a marca do evento: produção cênica e canções soul music. "Abolição 1860-1980" é interpretada na companhia de seis músicos vestidos com coloridas batas africanas. O Movimento Artístico Universitário (MAU) sobe ao palco com Ivan Lins e os compositores de "Amigo é Pra Essas Coisas" (Sílvio da Silva - Aldir Blanc)- canção sincrética do MAU.
"Xaxado-soul" com Wanderléa, vaia à sertaneja "Rio Paraná", empolgação com o solitário Taiguara formam a eclética segunda eliminatória. Duas canções, no entanto, marcam esta etapa e são a síntese do FIC: "BR-3" e "Eu também quero Mocotó". Na final, os gritos de Toni Tornado como piloto alucinado pela estrada que une o Rio a Belo Horizonte levam o 1º lugar e uma vaga para a eliminatória internacional.
Antes da apresentação, aperto de mão de Médici; depois, acusado de interpretar letra que aludia à cocaína, Toni é execrado. Erlon Chaves, o também negro cantor de "...Mocotó", é acusado por assédio moral após "número infeliz" em que é beijado por loiras em show na etapa internacional. Racismo e preconceito não deixam dúvidas de que a repressão do governo militar queria manter músicas e o espetáculo deste festival em favor da imagem que deveria ser painel para o mundo.
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