Por Leandro Lopes
Ruas transformadas em praças de guerra, confrontos entre tropas de choque e estudantes, tumultos, mortes, depredações e atentados terroristas. Este era o clima do Brasil, segundo Zuza Homem de Melo, em 1968. Enquanto policiais reprimiam na base da violência, intelectuais se reuniam para fomentar estratégias de manifestação contra o regime militar. Foi um ano de grandes mudanças para os festivais de música do Brasil. Porém, 1968 foi pouco favorável para quem queria fazer música de protesto, porque o próprio festival catalisava isto, transformando a luta daquele ano num happening político.
A primeira novidade foi uma excelente notícia para os paulistas que passaram a ter seis vagas nas semifinais nacionais, Minas ganharia duas, Bahia, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul teriam uma cada e o Rio, as 28 restantes para o total de 40 canções que concorreriam ao Galo de Ouro no Maracanãzinho no final de setembro. Outra mudança seria na montagem do júri, que não seria composto por jornalistas, como nos anos anteriores. Agora, seria formado um grupo de jurados mais ligado à área musical.
Apesar da censura, a maioria das músicas finalistas, principalmente na fase paulista, teve cunho de protesto, o que causou um estardalhaço entre júri, público, intérpretes e compositores. Gilberto Gil cantando "Questão de Ordem", Caetano Veloso com "É Proibido Proibir", e "Caminhando", de Geraldo Vandré, transformaram a apresentação no Teatro Universitário da PUC, na eliminatória paulista, em algo caótica, de acordo com jornais da época. Segundo o jornal Folha de São Paulo, Gil fundiu a cuca do júri e Caetano, ao tomar as dores, recebeu muitas vaias. Mas revidou à altura: "Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos. O júri é simpático, mas é incompetente!"
Injustiça
Na final da etapa nacional, no Maracanãzinho, o circo já estava armado. A imprensa insistia em dizer que seria o ano de Vandré, que apresentava, em meio à repressão política imposta pelo regime militar, uma letra sobre flores vencendo canhões, e em morrer pela Pátria a viver sem razão. No final, ordens de cima obrigaram a Globo a não dar a vitória ao Vandré. Ele não poderia ganhar esse festival de jeito nenhum. A despeito da qualidade, o público não aceitava "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim.
Insatisfação comprovada quando os vencedores da fase nacional do III FIC foram anunciados. O ginásio inteiro entoou grossa vaia quando o júri preteriu as flores e os canhões de Vandré e escolheu "Sabiá" como a vencedora. Em segundo, a preferida dos ouvintes, "Caminhando", composta e interpretada por Geraldo Vandré. O terceiro lugar ficou com "Andança" de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, interpretada por Beth Carvalho e Golden Boys.
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