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I FIC, MULHERES DA MPB

Por Gleice Meire

SAVEIROS (Dori Caymmi - Nelson Motta)

Nem bem a noite terminou
Vão os saveiros para o mar
Levam no dia que amanhece
As mesmas esperanças
Do dia que passou.

Quantos partiram de manhã
Quem sabe quantos vão voltar
Só quando o sol descansar
E se os ventos deixarem
Os barcos vão chegar
Quantas histórias pra contar

Em cada vela que aparece
Um canto de alegria
De quem venceu o mar

Música de sofisticada melodia, "Saveiros" foi rejeitada pelo público e tachada de difícil por alguns críticos. Por ser uma canção fora do modismo, a intérprete Nana Caymmi foi apressadamente vaiada, inaugurando um tipo de comportamento que o público usaria muitas vezes nos próximos festivais. Somente o tempo pôde provar a grandeza dessa composição, provar que os jurados acertaram na escolha da música que levou o primeiro lugar no I FIC - Festival Internacional da Canção, realizado pela TV Globo em 1966.

"É uma composição de músico para músico, que exige um intérprete rigoroso com afinação para não cometer enganos comprometedores em alterações tão sutilmente elaboradas". É assim que Zuza Homem de Mello define "Saveiros", composta por Dori Caymmi e Nelson Motta, em seu livro A Era dos Festivais - uma Parábola. É assim que a canção permanece na história da Música Popular Brasileira, como uma obra refinada.

Os segundo e terceiro lugares foram, respectivamente, para "O Cavaleiro", de Tuca e Geraldo Vandré, interpretada por Tuca, e "Dia das Rosas" composta por Luís Bonfá e Maria Helena Toledo, intepretada por Maysa. Elis Regina, umas das candidatas fortes ao prêmio com "Canto Triste", de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, chegou à final, mas não levou.

O I FIC, realizado no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, foi, também, palco de disputa acirrada entre as mulheres da MPB - Nana Caymmi, Maysa e Elis Regina. A história dos bastidores descrita por Zuza revela que Nana chegou a desmaiar devido a forte pressão das concorrentes sobre ela. Mas, no final, Nana recebeu apoio da rival Maysa contra as vaias do público. "Agora é hora de aplausos, vamos!", gritava Maysa.

A qualidade do som foi reclamação geral, o Maracanãzinho não era um local adequado para um festival de música, a dimensão do estádio dispersava o som, impossibilitando que muitas músicas fossem, sequer, ouvidas. Os músicos se sentiram injustiçados, os jurados reclamavam e a crítica repercutiu nos jornais.

Augusto Mazargão, criador e organizador do evento, até que tentou um lugar melhor, porém o corte de mais da metade dos recursos a menos de dois meses antes do início do festival prejudicou todo o desenvolvimento do concurso. Os teatros, quando não estavam ocupados, se recusavam a sediar festival. O Festival teve uma fase nacional e outra internacional, Mazargão convidou estrangeiros ilustres como os compositores Henry Mancini, Julio de Caro (que compôs "Boedo"), Mauricio Cardoso Ocampo (autor de "Galopeira") e outros notáveis e não poderia desistir na reta final.

O público ainda estava inebriado com "A Banda", de Chico Buarque, que acabara de vencer o II Festival da Record em 29 de outubro de 1966. Chico Buarque integrou a mesa do júri internacional, atraiu a atenção dos estrangeiros, e foi aclamado a cantar para a platéia do I FIC, sendo o mais aplaudido de todo o festival.

Outra marca do I FIC foi o teor triste das canções, enquanto o público esperava um ritmo mais rápido, mais alegre, predominaram as canções tristes, pausadas. Foi, também, marcado com revelação da voz inebriante de Gal Costa.

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