Tudo de novo na quarta eliminatória do Festival Cultura
Brasil conhece últimos selecionados da primeira peneirada do Festival Cultura
Intérpretes se destacam no Festival Cultura - A Nova Música do Brasil
Por Ludmila Ribeiro
Quem não conhece, ou pelo menos ouviu falar do sucesso da performance "helicóptero" de Elis Regina cantando "Arrastão"? Ou da presença malandra de Jair Rodrigues cantando e dançando "Disparada"? Pois é, tem coisas que o tempo não consegue apagar, nem fazer com que deixem de existir. Em qualquer tempo e em qualquer festival, a presença de palco e a interpretação são quesitos fundamentais para uma música emplacar ou não. Muitas vezes é papel do intérprete potencializar a canção e fazê-la conquistar público e jurados. Não é papel fácil, e é claro que, se a música e a letra não ajudarem, é investimento em vão. Mas quando se trata de um festival de música para a TV, para o grande público, para uma concorrência que nem sempre é pautada pela qualidade, como é o caso do Festival Cultura - A nova música do Brasil, esse artifício vem a calhar.
Foi o que se percebeu em todas as eliminatórias do Festival Cultura, que ocorreram no mês de agosto e se encerraram nesta quarta-feira, dia 24 de agosto, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Apesar de nem todos os concorrentes terem optado por uma interpretação de peso, e outros terem escolhas não muito impactantes, os intérpretes, alguns conhecidos da mídia e do público, foram uma atração a mais. Já estão no páreo e com forte chance de ganhar o prêmio de melhor interpretação a cantora Lúcia Helena, pela bela canção em "Que Bom Seria"; Rita Braga, por "Choro Alegre"; a reconhecida Ceumar com "Achou!"; Roberta Sá por "Girando na Renda", com Pedro Luís e A Parede; Luzia Dvorek, com "Toada" e as mineiras Paula Santoro, cantora melhor que "Um Samba a Dois" que interpretou e Marina Machado, pela forte atuação em "Hotel Maravilhoso". Concorrem ainda outros intérpretes com menos potencial, como Tadeu Franco, que interpretou com nervosismo a canção "Um Sonhador", de Toninho Horta e os próprios compositores que interpretaram suas canções, uns mais performáticos e talentosos que outros.
Nesta última
eliminatória, dia 24 de agosto, quem se destacou mesmo foi o cantor Marcelo
Preto, que além de uma bela voz, usou e abusou das sonoridades corporais
que marcam o seu trabalho com o grupo Barbatuques. Fiel à dinâmica
tensionada da música "Startrek de Tacape", de Chico Saraiva,
Marcelo Preto conquistou o público e entrou para a semifinal. Além
dele, destacaram-se ainda a ovacionada Fabiana Cozza, com "Mãe Canô",
e a sambista Adriana Moreira, que surpreendeu com uma voz aguda e menos potente
do que pedia o samba partido-alto "Lama", de Douglas Germano. Passou
batido do júri e do público a ótima "Contrapeso",
música de Beto Firmino que teve interpretação à altura.
As compositoras Uliana Dias e Cláudia Vasconcelos não emplacaram
suas canções e, com exceção de Marília Medalha,
confirmaram que a participação feminina está restrita à
interpretação..![]()
***
Por Tharita Chimenez
Aplausos. Vaias. A performance continua fora do palco. Feito para a telinha, o show dos bastidores também é acompanhado pela platéia do Sesc Pinheiros. Em casa ou do telão no palco, o público confere detalhes com quem percorreu, da inspiração ao espetáculo final, toda a produção musical. Na quarta e última noite de eliminatória do Festival Cultura, Sabrina Parlatore fez as perguntas de praxe recebendo a mesma resposta de que a apresentação foi maravilhosa, a emoção é grande e a ansiedade ainda maior à espera da classificação. Mas a moça soube improvisar e apimentar algumas interrogações.
Após citar trechos de "Seresteiro a Perigo" onde por amor se ouviria Tchan, Charlie Brown e COM e se "trocaria Nietzsche por Paulo Coelho", a apresentadora do Vitrine cutuca: "Tem algo contra eles?". "Não, eu escuto em casa", dribla o intérprete Edu Franco. Além da simpatia, não faltou o tradicional "dá uma palhinha pra gente". E entre as palhinhas de intérpretes e grupos os acompanharam, ouviu-se até "Hino Nacional" na bochecha.
Hino também na viola de Miltinho, um divulgador da cultura nordestina - o pedido veio do repórter Rodrigo Rodrigues que interveio da platéia, mostrando que a sincronia da produção não ficou apenas atrás do palco. Aliás, da platéia surgem, em cada edição, figuras mais gabaritadas. Para a produtora Tuca - o cérebro do fala-povo do espetáculo - não basta apenas estar ali, como foi na primeira eliminatória, tem que ter legenda ligada à música, como o produtor do novo CD do Zeca Baleiro que ganhou alguns minutos de entrevista em meio ao bolão da preferida da noite.
Sincronizada estava a apresentação de Magda Pucci e Wandi Doratiotto. Primeiro um comentário sobre a selecionada que acabara de se apresentar e depois a pré-apresentação com alguns dados dos envolvidos na próxima canção a subir ao palco; tudo finalizado pela entrada de Cuca Lazarroto que intercavala letristas, arranjadores e intérpretes aos nomes dos jurados, apresentados à volta do intervalo.
Magda e
Wandi, com um texto bem embasado sobre as tendências musicais e o tema de
cada selecionada, deixaram de pecar pela repetição - marca das edições
anteriores. O enquadramento individual dos apresentadores, que passou a ser adotado
na eliminatória anterior, repetiu-se e contribuiu para separar as informações.
Mesmo assim, vez ou outra, Magda Pucci insiste em aparecer, nem que seja passando
por trás de Wandi quando a fala é dele..![]()
***
Tudo de novo na quarta eliminatória do Festival Cultura
Por Reuben da Cunha
Foi uma homenagem que marcou o início da quarta
edição do "Festival Cultura - A nova música do Brasil".
Realizada na última quarta-feira (24/08) no Teatro do Sesc Pinheiros (SP),
a festa começou com o samba composto por Leandro Medina e Renato Epstein
em louvor de Mãe Canô, a senhora que trouxe ao mundo Caetano e Maria
Bethânia.
Eu, do outro lado da tela, me perguntando: uma homenagem
à mãe de Caetano e Bethânia assim, num samba redondo desses?
Samba
com tudo no lugar, "Mãe Canô", bem arranjado, bem previsível.
Flauta no lugar, pandeiro no lugar. África sem sensualidade. E tudo pra
dizer que os compositores devem muito aos filhos da Mãe. Mas como prestar
homenagem à mãe de um dos pais da Tropicália, esse movimento
fundamental de renovação da música brasileira, com um samba
assim, sem nenhuma atualização?
Calma que adiante tem
outro samba. "Lama", de Douglas Germano. A letra agora só louva
o próprio samba. Aquele com direito a amor, suor e dor. "Samba que
fala das coisas do mundo/ samba que ninguém precisa explicar". Não
teria problema se fossem as coisas que a gente já sabe. Afinal, é
provável que tudo já tenha sido dito. Problema é serem as
coisas que já sabemos e do jeito que sabemos. Depois, na entrevista, o
discurso do "samba que vem da terra, samba de raiz". Douglas é
um sambista tradicional, com muito orgulho.
Os dois sambas estão
classificados para a semifinal, junto com um terceiro, o buarquiano "Amanhã
Depois de Amanhã", de Celso Viáfora. Diga-se, bom nível
de elaboração poética ("a manhã me dobrava uma
esquina") e melódica (dos três sambas, é o refrão
mais marcante).
Duas outras classificadas talvez tragam alguma surpresa.
"Seresteiro a Perigo", de Edu Franco, tem o humor que andava sumido
da música brasileira, e que, com raras exceções, nunca foi
levado muito a sério por nossa crítica. "Startrek de Tacape",
de Chico Saraiva, além da poesia sinuosa ("pugilato à luz do
sol"), contou com o grave luxuoso do intérprete Marcelo Pretto.
A
última classificada é "A moça na janela", letra
de Lula Queiroga musicada por Zé Renato. Lula Queiroga tem uma participação
respeitável na música brasileira, e não é dessa vez
que ele tropeça. Mas Zé Renato tem a voz frágil demais para
uma melodia tão difícil, e desafina bastante.
A não
classificação de "Contrapeso" (Beto Firmino) e "Romance
Pós-Moderno" (Uliana Dias - Samira Marzochi) escancara a falta de
compromisso do festival com a pesquisa estética (portanto, com a renovação
musical). A música de Beto Firmino é, disparado, a mais refinada,
poética e harmonicamente. Lembra maracatu, lembra poesia concreta, lembra
Arnaldo Antunes, mas guarda alguma coisa de pessoal e intransferível. "O
peso da beleza", como diz a letra. "Romance Pós-Moderno"
arejou o festival, a começar da formação de palco: voz, guitarra
(uma linda pegada de rock alternativo e jazz) e programações eletrônicas.
Prevendo o desconforto que causaria, Uliana deu o toque: "espero que os jurados
abram a cabeça". Não foi dessa vez..![]()
***
Brasil conhece últimos selecionados da primeira peneirada do Festival Cultura
Teatro lotado e platéia participativa esquentam o clima da competição na última eliminatóriaPor Júlia Tavares
Um casal de namorados, fazendo questão de mostrar indignação, reclamava das escolhas do júri com o coordenador de produção da TV Cultura, Zeca Duarte. "É um absurdo que coisas como 'Guri de Acampamento' (Luiz Carlos Borges) tenham entrado!", reclamava a jovem, que, para sua surpresa, encontrou opinião parecida por parte do coordenador. "Eu também queria que 'Busca' tivesse entrado hoje, mas cabeça de júri é como bundinha de neném: a gente nunca sabe o que vem!", brincou Zeca, prometendo aos dois que a idéia de lançar um CD com todos os 48 finalistas que participaram da primeira etapa do festival, encerrada naquela madrugada do dia 24 de agosto, não estava descartada.
A conversa despretensiosa acontecia meia hora depois do encerramento da primeira etapa do Festival da Cultura - A Nova Música do Brasil, que recebeu 5.198 inscrições de composições em todo o país. Na quarta e última eliminatória foram finalmente conhecidas as 12 canções restantes. Coincidentemente (ou não), a opinião geral era que de esta havia sido a noite mais jovem e surpreendente até agora. E, da primeira grande peneira, restaram os seguintes grãos selecionados na opinião do júri, composto por Carlos Calado, Hugo Suckman, Pedro Alexandre Sanches, Ricardo Alexandre e pelos músicos Eduardo Gudin, Joyce, Théo de Barros, Rudá Duprat e Hermelino Neder: "Mãe Canô" (Leandro Medina - Renato Epstein), "A Moça na Janela" (Zé Renato - Lula Queiroga), "Seresteiro a Perigo" (Edu Franco), "Lama" (Douglas Germano), "Amanhã de Depois de Amanhã" (Celso Viáfora) e "Startreck de Tacape" (Chico Saraiva).
A descontração da noite ficou por conta desde canções como "Cantoria" (Zé Gaudêncio Torquato), interpretada pela sanfona de Miltinho Edilberto, ao techno de "Romance Pós-moderno" e seu divertido refrão ("Aninha foi ao sex shop/ comprar um boneco kleiniano inflável"), ao humor sarcástico de "Seresteiro a Perigo" (Edu Franco), lembrando a criatividade dos falecidos Mamonas Assassinas. Sobrou espaço ainda para o bem recebido samba "Lama" (Douglas Germano) - uma das melhores interpretações por Adriana Moreira, competindo com Fabiana Cozza em "Mãe Canô" (Leandro Medina - Renato Epstein) - e a poesia concreta de "Contrapeso" (Beto Firmino).
Acertando os ponteiros
Da primeira eliminatória, no dia 3 de agosto, para esta quarta, as mudanças na condução do festival revelam que a TV Cultura não tem medo de mudar. O casal de apresentadores Magda Pucci e Wandi Doratiotto estava mais sintonizado, num ágil ping-pong com a apresentadora Cuca Lazarotto e com Sabrina Parlatore nos bastidores.
A maior presença de público, que pagou de R$5 a R$10 por ingresso, colaborou para dar vivacidade à noite. Para evitar a fuga em massa a cada intervalo, a produção avisou que o tempo máximo permitido fora dos lugares era de 1 minuto. Com ameaça de não poder entrar novamente, muitos deixaram o cigarro de lado, evitando os "buracos" presentes nas edições anteriores.
Nas entradas e saídas dos concorrentes, nada parece fugir do script. Um batalhão de 15 homens, vestidos de preto e munidos de capacete com iluminação, desmontou a estrutura de instrumentos usados em "Cantoria" e deixou tudo pronto para "Indústria e Comércio Ltda" em 2 minutos e 10 segundos.
"Não temos a estrutura da Globo, fazemos o festival na raça. Mas se precisar levar um elefante para o palco, a gente leva", conta Zeca Duarte, que também trabalhou na produção do Festival da Música Brasileira da TV Globo em 2000. Segundo ele, a TV Cultura contratou 360 pessoas, todas envolvidas nas eliminatórias, incluindo transporte, alimentação e gravações, entre muitas outras tarefas.
"Nosso
trabalho se concentra na segunda, na terça e quarta-feira, num horário
que varia de 12 a 16 horas por dia", diz Zeca, que, apesar de exausto, abraçava
e parabenizava todos os colegas que passavam por ele na saída do teatro
do Sesc Pinheiros. Ele conta que os músicos participantes chegam em São
Paulo no domingo e que os equipamentos são trazidos para o Sesc na segunda-feira,
dia em que ocorre o primeiro ensaio das músicas num estúdio da vila
Madalena. "Terça-feira é o dia do ensaio com instrumentos e
marcação de palco, e na quarta fazemos só a passagem",
relata Zeca, se mostrando disposto em voltar a conversar com a repórter.
"Só não me procure amanhã, porque é o dia que
não existo". O recado foi perfeitamente compreendido.![]()
Copyright © 2005 Brasileirinho Produções Ltda.