FESTIVAL DA CULTURA (2005) - 3ª ELIMINATÓRIA
Nem verso, nem prosa
Críticas rasas e pouca poesia na 3ª eliminatória do Festival Cultura
Por Ludmila Ribeiro
No original, "Rythm and poetry", ou "Ritmo, Arte e Poesia", para os brasileiros. O RAP, expressão musical do movimento hip hop, tem se configurado com uma das músicas de maior representatividade nos dias de hoje. O som é eletrônico, acelerado e ritmado na freqüência das grandes cidades, assim como as letras, a poesia concreta de uma realidade marcada por desigualdades. O rap compõe o cenário da música feita no Brasil atualmente. O rap e todo o movimento hip hop não estão representados no Festival Cultura - A nova música do Brasil.
Mas na noite do dia 17 de agosto, quando aconteceu a 3ª eliminatória do Festival da TV Cultura, o rapper Thaíde se destacou, mesmo atuando como convidado especial, fazendo as vezes no palco enquanto rolava a votação do júri. Representando o hip hop e toda uma geração de novos músicos que também ficou de fora deste festival, Thaíde mandou o seu recado. Reforçou a nostalgia que paira sobre este festival de 2005, que realmente busca resgatar "um tempo bom que não volta nunca mais", entoando as clássicas canções de protesto da década de 60 e 70, "Roda Viva" e "Caminhando", com direito a improvisações bem mais atualizadas. Seguiu com seu show retirando a poeira do passado e, vestido a caráter, apresentou músicas de sua autoria, com engajamento, crítica e poesia - exatamente o que falta à maioria das canções apresentadas neste festival. O contraste entre Thaíde e os músicos concorrentes foi gritante, principalmente no que diz respeito às letras.
As legendas, recurso usado pela TV Cultura para destacar as letras das músicas concorrentes (já que essa também é uma das categorias de premiação), confirmaram: tá faltando poesia neste festival. Numa noite de sambas, bossas e músicas pop, saíram vitoriosas as canções "Classe Média", de Max Gonzaga, "Um Samba a Dois", de Eduardo Neves, "Toada", de Mário Séve, "A Chaga", de Fausto Prado, "Hotel Maravilhoso", de Flávio Henrique e "Sai da Cruz", de Élio Camalle. A primeira e a última vencedora são o principal exemplo de uma crítica rasa, feita em cima de versos pobres e de redundantes citações e que permeiam a maioria das canções apresentadas.
Tome como exemplo um trecho de "Classe Média": "Estou sempre no limite do meu cheque especial / Eu viajo pouco, no máximo um / Pacote CVC tri-anual / Mas eu 'tô nem aí'". As citações e as fórmulas musicais estão entre o massificado e o impregnante. As letras são pobres, diretas e pecam pela ausência de poesia. Estes "novos" músicos perderam a possibilidade de ir direto ao assunto e de usar esta que é uma das grandes virtudes da arte: instigar sem limitar as interpretações do público com objetividades.
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