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FESTIVAL DA CULTURA (2005) - 2ª SEMIFINAL

Festival Cultura - A 2ª semifinal e as escolhas que não agradaram

Solano Ribeiro fala sobre a nova música do Festival Cultura

Festival Cultura - A 2ª semifinal e as escolhas que não agradaram

Por Jayme Canashiro

Perplexidade. Estampada no rosto dos espectadores parados nos corredores do Teatro do SESC Pinheiros ao final da 2ª. semifinal do Festival Cultura - A Nova Música do Brasil. Um grito ecoava no auditório quase vazio, tomado apenas pelos funcionários guardando os equipamentos: "É por isso que esta emissora só dá traço! Marmelada!"

O auditório estava lotado para conhecer as 6 músicas que se juntariam às classificadas na semifinal da última semana. Grupos torciam com faixas e cores que os identificavam: camisetas cor de laranja torcendo por "Classe Média", amarelas a favor de "Amanhã de Depois de Amanhã". O grupo a favor de "Mãe Canô" usava chapéus multicoloridos, e cantava o refrão da música a cada pausa dos apresentadores.

O empenho da produção era notado nos intervalos entre as músicas: funcionários desmontavam o cenário da apresentação anterior e montavam o cenário seguinte em poucos minutos, o apresentador Rodrigo Rodrigues se concentrava com a equipe, esperando a próxima intervenção.

Os intérpretes marcaram a noite: intimistas como Ana Luíza, contagiantes como Ito Moreno e Roberta Sá, ou espalhafatosos como Edu Franco. Alguns momentos marcantes: a apresentação de "Cassorotiba", vaiada quando anunciada, teve muitos aplausos no final abafando algumas vaias resistentes; "Seresteiro a Perigo", ajudada por efeitos de luzes e pela interpretação afetada, rendeu aplausos e risadas; "Classe Média" foi aplaudida de pé.

Jurados e comentaristas ficaram no camarote no andar de cima, só eram notados quando a apresentadora Cuca Lazzaroto se referia a eles. Não passaram despercebidos, como mostrou a reação da platéia no final.

Antes da revelação dos classificados, o Cordel do Fogo Encantado apresentou um show de ritmo intenso, algumas pessoas levantaram para dançar nas laterais do auditório. A própria Cuca anunciou as músicas classificadas e se declarou surpresa: "Amanhã de Depois de Amanhã", "Girando na Renda", "Haicai Baião", "Maracatu, Samba e Baião", "Seresteiro a Perigo" e "Cassorotiba".

Reação imediata da platéia: vaias e gritos de "Marmelada!" Alheio à revolta, e feliz com a classificação de "Maracatu, Samba e Baião", Ito Moreno falou: "A expectativa era grande, eu tinha objetivo de chegar à final pela oportunidade de mostrar o trabalho, já que estou fora da grande mídia."

Apesar da discórdia, várias vozes defendem a importância do Festival. Segundo o músico Zé Rodrix, "Isto tem que ampliar, ter cada vez mais festivais! Os ritmos que mais vendem no Brasil - sertanejo e rap - não estão representados. Tem muita coisa boa que só aparece aqui, precisa ser mostrada!". Rodrigo Rodrigues disse: "O mérito é o Festival existir. Pode haver muitas críticas - a sonoridade antiga, as pessoas que já participaram de outros festivais - mas o formato pode melhorar, o critério de seleção pode mudar, e é importante que o Festival se mantenha." Na saída, pessoas reclamavam: "Vou vender meu ingresso da final, nem vale a pena vir." Ânimos serenados, vale a pena sim vir, escolher uma das doze finalistas e torcer.. Subir

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Solano Ribeiro fala sobre a nova música do Festival Cultura

Por Elisa Andrade Buzzo

Largos corredores levam à sala B-3, na sede da TV Cultura, em São Paulo. Cada um deles é dividido por um jardim onde, de uma das janelas, se vê Solano Ribeiro de costas, trabalhando em frente ao computador em mais uma manhã. Diretor-geral do Festival Cultura "A Nova Música do Brasil", sua vida está entrelaçada com a história dos festivais das décadas de 1960, 70 e 80.
Solano esteve à frente do 1º Festival Nacional da Música Popular Brasileira, em 1965, na TV Excelsior. Depois, seguiram-se outros tantos festivais, como o 2º Festival da MPB da TV Record de 1966, quando "A Banda" e "Disparada" empataram, e o Festival dos Festivais da TV Globo, em 1985. "Este festival aqui [Festival Cultura] poderia ter acontecido há cinco anos", diz ao relembrar o inexpressivo Festival da Música Popular Brasileira de 2000, da TV Globo.

O Festival Cultura foi lançado em março de 2005. Depois de quatro eliminatórias e duas semifinais no teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo, nesta quarta-feira será a grande final. Foram 5.198 músicas inscritas e 12 selecionadas para concorrerem na final, que irá premiar, além das três melhores músicas, melhor intérprete, melhor letra e melhor arranjo. Serão mais de R$ 500,00 em prêmios.

Ainda haverá prêmio para melhor clipe, melhor fotografia e melhor roteiro. "O objetivo é mostrar que o festival enxerga que a música na televisão hoje em dia é o clipe, mais do que a apresentação do cantor", fala Solano a respeito dos clipes que serão produzidos das músicas finalistas do festival.

Confira a entrevista que Solano concedeu ao Rumos Itaú Jornalismo Cultural, dois dias antes da segunda semifinal do Festival Cultura.

Rumos Itaú - Como surgiu o convite da TV Cultura para reviver os festivais?

Solano Ribeiro - O convite da Cultura veio há muito tempo. Numa vez eu encontrei o Marcos Mendonça em um jantar, e as pessoas olham pra mim e pensam em festival. O meu passado me grava isso. Então ele me perguntou se eu achava que a Cultura seria um lugar pra se fazer um festival. E eu falei que é o melhor lugar atualmente pra se fazer um festival. Porque a Cultura está completamente liberada de jogadas de marketing, de gravadoras, essa coisa toda. Então nós podemos fazer um festival isento. E o Marcos Mendonça me deixou com total liberdade pra fazer o que eu achar. Essa conversa que ele teve comigo foi bem antes dele ser eleito presidente da Fundação Padre Anchieta e da TV Cultura. E depois quando ele veio pra cá ele me chamou pra conversar.

Rumos - Solano, como você recebeu as críticas dirigidas ao festival sobre a presença, num festival de "nova música", de compositores e intérpretes já com anos de estrada?

S. R. - Quando se revelou o grupo de compositores, a gente teve algumas surpresas, tipo Marília Medalha, Toninho Horta. Só que era o trabalho classificado e era um bom trabalho e a gente não tinha justificativa porque não deixá-los participar, não é proibido para maiores o festival. Então, o que aconteceu foi que toda uma geração de compositores que vêm trabalhando já há algum tempo, que participa de muitos festivais, que tem trabalhos feitos e que tem gravações, entrou também no festival e evidentemente seu trabalho é um pouco mais consistente. Agora, eu acho que a nova música de um compositor velho é a nova música do Brasil, sim. A fórmula do festival é uma fórmula que foi interrompida por razões políticas. Agora, o Festival de San Remo existe há 55 anos, Viña del Mar há muito mais de 40 anos. Essa interrupção fez com que deixasse de existir uma janela aberta para o novo, para o novo compositor, para o novo intérprete e tudo o mais. Então, a gente resolveu recomeçar. Quando eu fiz o primeiro festival há quarenta anos - inclusive eu até questiono, será que seria eu a pessoa certa para recomeçar o processo de festivais? - eu queria fazer um bom programa musical de televisão, jamais poderia imaginar que aquilo seria um processo que nos seus desdobramentos iria fazer parte da história do país, não só da música, da televisão, como do próprio país. Hoje em dia, depois de não existir festival há tantos anos, nós estamos de novo querendo fazer um bom programa musical de televisão. Acho que se os desdobramentos levarem a fazer com que o festival volte a ser um local de manifestação política e musical, e uma janela para o novo, isso é coisa que nós temos que deixar o tempo passar um pouco pra poder avaliar as reais implicações e as reais influências e o resultado do festival em si. Quem sabe daqui a quarenta anos a gente converse de novo? (risos)

Rumos - O que você está achando do comportamento da platéia neste festival?

S.R. - Quando a gente resolveu fazer o festival, depois de muito avaliar a sua pertinência, uma das coisas que me ocorria era a necessidade de se criar uma platéia que surgisse espontaneamente, que não fosse uma coisa forjada, que não fosse uma coisa produzida pela emissora. Ou, simplesmente, uma coisa que acontecesse a partir das torcidas de determinados compositores. Então, isso era uma das minhas grandes preocupações porque tantos anos depois a gente não sabe mais o que seria, como seria, uma platéia de um festival porque não se tem referência, a não ser histórica. Nós fizemos uma série de documentários onde a gente mostrou a participação da platéia da Record, essa coisa toda, mais pra de certa maneira explicar o que seria uma nova geração de participantes de festival. E eu não sabia o que iria acontecer. Fiquei com medo em determinado momento de que a platéia fosse dominada por torcidas, o que iria distorcer um pouco o comportamento da platéia. E agora eu estou percebendo que está acontecendo aquilo que eu esperava - nós estamos tendo uma platéia que começa a ouvir as outras músicas, a aplaudir as outras músicas e a escolher a sua música favorita e torcer por ela. É claro que tem sempre grupos que vão lá torcer para determinados compositores e tudo mais, mas isso é uma coisa inevitável. O que está acontecendo é que a platéia, até o quanto eu posso avaliar, está crescendo. Por incrível que pareça, o que você encontra de lugares vazios lá no Sesc, são convidados do Sesc e da TV Cultura que não comparecem. Porque em determinado momento, o Sesc pára de vender. A partir do momento que os computadores acusam que os lugares estão todos tomados, e eles são muito rigorosos nisso, eles param de vender e a gente tem deixado de vender centenas de entradas. O que me deixa altamente decepcionado, mostrar vazios que podem parecer, para quem estiver assistindo, que as pessoas não foram. E, se a gente deixasse à venda, estaria lotadíssimo.

Rumos - Sinto a falta das músicas do festival tocando no rádio. Você não acha que o público ficaria mais ligado no festival se tivesse a oportunidade de ouvir mais vezes as músicas?

S.R. - O que acontece é que nós temos aqui algumas limitações pelo próprio volume de audiência da TV Cultura. E nós temos uma certa limitação pela própria inexistência hoje de um grande movimento musical que faça com que as rádios tenham um maior interesse em botar isso no ar e colaborem com esse festival. Agora, isso não é uma coisa cuja resposta você vai ter imediata. O resultado do festival nós vamos saber de fato, depois, com o que acontecer com as músicas, com essas pessoas que a gente revelou. Nós estamos revelando muita gente nova, muita gente talentosa e que vai fazer uma carreira. Tudo isso é um recomeço e esse recomeço, eu estou achando que ele está cercado, a TV Cultura nos deu condições de cercá-lo com uma infra-estrutura profissional que raras vezes se viu na televisão brasileira. A qualidade do som, a qualidade da imagem, a experimentação daquelas projeções que a gente faz. Tudo aquilo é uma coisa criada pelos artistas da TV Cultura de computação gráfica e que estão fazendo um trabalho extraordinariamente interessante, integrado com a música que está sendo apresentada. O festival como programa de televisão, eu não digo que me satisfaz porque tem muitas coisinhas ainda a serem corrigidas. A gente está evoluindo, cada programa você percebe que ele no ar é um pouco melhor do que o outro. Na final nós teremos aprendido a fazer e acabou. (risos)

Rumos - O júri está conservador neste festival?

S.R. - Todo júri é conservador. Mesmo no passado, se você pegar os exemplos, você vai ver que ele sempre tem medo do novo. E esse, particularmente, dada a conjugação que aconteceu em função de algumas falhas de última hora na composição do júri, ele ficou um pouco conservador demais. Então o festival ficou com um perfil mais velho do que eu gostaria. Ele deixou pra trás músicas que eu acho que seriam de bom apelo popular e bom apelo para um espectador mais jovem, tipo "Misturada", "A Moda", "Samba Russo", por exemplo. Eu preferiria qualquer uma dessas a uma música que me leva à bossa nova. Eu acredito que entre as cinco primeiras vão estar as melhores cinco músicas. Pode ter certeza, a melhor música vai ganhar o festival.

Rumos - Como é sua relação com o júri?

S.R. - Somos inimigos íntimos (risos). Eu tenho que prestigiar o trabalho deles, afinal de contas, eu os convidei e tenho que deixar que cada um deles manifeste a sua opinião, e não a minha. Só que de repente tem muita opinião contra a minha. E eu vejo o festival não só como um evento musical, eu vejo o festival como um evento de televisão. Então algumas coisas que são números interessantes, e que são números que talvez possam significar - até uma rejeição por parte do público - mas um passo a frente, eu prefiro este tipo de música. Vou te dar um exemplo, "Romance Pós-Moderno". Pra mim aquilo foi a coisa mais bonita que eu vi no festival. Como música ela está dentro de uma corrente, que é a música eletrônica. Eu gostei também daquela música que se chama "Contrapeso", que tinham aqueles tambores ali. Era uma coisa minimalista e interessante e que significava uma fuga do mesmismo, uma fuga da canção. Às vezes eu penso que esse júri está à procura da canção perdida. E eu quero que o festival ande, a gente tem que abrir a porta.

Rumos - Do que você sente falta neste festival?

S.R. - Eu sinto muita falta de certos movimentos que existem e que não vieram com uma música que os representasse com suficiente qualidade para estar no festival. Eu estou querendo dizer, por exemplo, esse movimento do Pernambuco, que hoje em dia é fortíssimo. Mas tem outras coisas, nós tivemos surpresas, de repente entrar uma música do Amapá, que eu acho interessante a gente conhecer o "mar abaixo".

Rumos - O que é uma música de festival hoje? Quais são as características dela, se é que ela existe?

S.R. - Antigamente tinha. E existe muita descrição que música de festival são músicas que tem um efeito que vai causar na platéia uma reação. Ou seja, às vezes é uma subida de tom, às vezes é uma pausa, às vezes é uma quebrada de ritmo, às vezes é uma acelerada no ritmo. Então, isso é uma música feita, ou pelo menos na sua elaboração, no seu arranjo, com o objetivo de causar algum impacto na platéia. Agora, nós tivemos o cuidado de evitar que músicas desse tipo entrassem, embora algumas tenham passado, sim. Quando era música que a gente percebia que o cara construiu para que tivesse efeito na platéia de um festival, a gente já tirava fora. Além do que, você precisa reparar que a gente conseguiu um painel muito rico de representatividade da música do Brasil. Nós tivemos essa música do Amapá, que eu já citei, nós tivemos a música do gaúcho, que está até classificada, "Guri de Acampamento". Um amigo falou "pôxa, Solano, o festival já é histórico!". Eu falei "histórico não, mas geográfico ele já é", porque do Oiapoque ao Chuí nós temos música (risos). Nós temos música praticamente do Brasil inteiro. E isso não aconteceu com uma intenção. As músicas foram sendo classificadas e, quando nós vimos, nós tínhamos um painel muito rico.Subir

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