Por Fabio Gomes
Quem Matou o Leitor? era a bombástica pergunta-título do bate-papo entre dois escritores na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre: o pernambucano Fernando Monteiro e a gaúcha Cíntia Moscovich, realizado no dia 7 de novembro de 2008 no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.
Embora os números de venda de livros se mantenham em ascensão, Monteiro acredita que as simples estatísticas não servem para elucidar o caso. Mesmo dizendo ser uma bobagem temer-se pelo fim do livro, acredita que está morto aquele leitor que entrava numa livraria buscando uma obra que poderia mudar sua vida. Hoje, o leitor que entra numa livraria certamente procura um livro de auto-ajuda, ou uma obra ligada a religião, ou um lançamento sobre um fato do momento e/ou temas étnicos (citou O Livreiro de Cabul, de Åsne Seierstad, como um exemplo desta tendência). A literatura propriamente dita estaria portanto disputando um quarto lugar nas livrarias - em tese, porque Monteiro elaborou, no final do ano passado, uma lista dos 100 livros mais vendidos ao longo de 2007, sem levar em consideração o ano do lançamento. Dos 100, considera que apenas oito sejam obras que seu "leitor ideal" buscaria (os títulos aparecem na ordem em que Monteiro os citou):
Considerando que todas as outras 92 obras pertenciam a alguma das três tendências dominantes, Monteiro faz eco à opinião que ouviu do escritor alemão Günter Kunert numa recente edição da Feira do Livro de Frankfurt: o motor interno da nossa atenção mudou e não se encaixa mais com atividades como a leitura, que exigem um ritmo mais lento, um nível de atenção difícil de obter na era da televisão e da internet.
Ao preferir livros de interesse utilitário ou ligados ao factual, o leitor médio automaticamente rejeita tudo que lhe pareça pertubador. Monteiro citou o recente texto "Um Impasse Trágico no Mercado Editorial", de Chico Lopes: aqueles que hoje repetem a frase de Torquato Neto ("é preciso desafinar o coro dos contentes") sabem que falam somente para seus pares. O grande público cada vez mais tenderá a aceitar apenas o que for eufórico ou imediatamente digerível. Em função disso, as editoras evitam correr riscos; o mercado está contaminado pela febre do êxito. Monteiro vê as editoras inacessíveis para autores de qualidade:
- Um autor com texto mais difícil, mais artístico, tem dificuldade para publicar em qualquer lugar do mundo.
Este quadro não se restringe apenas à literatura, atinge a cultura como um todo - e já podia ser antevisto há tempos nas manifestações de importantes cineastas. Em palestra que Monteiro assistiu em 1969 no Centro Esperimentale di Cinematografia di Roma, o italiano Pier Paolo Pasolini alertava para o risco da ditadura da sociedade de consumo de massa. Já no texto "A Pele da Serpente", que Monteiro leu publicado na revista O Cinéfilo, de Lisboa, em 1973, o sueco Ingmar Bergman dizia que já então via a cultura como uma pele de serpente, oca, que só parecia viva por estar sendo carregada por milhares de formigas: "Literatura, cinema, pintura, música, teatro são feitos para um público cada vez mais distraído, assemelhando-se à pele desta serpente: morta, privada de seu veneno". Pouco tempo depois, Bergman afastou-se do cinema, encerrando a carreira no auge.
Voltando a tratar especificamente da literatura, Monteiro confessou-se chocado quando, na mesma Feira de Frankfurt onde ouviu Kunert, viu Paulo Coelho receber o tratamento de grande escritor, idêntico ao dispensado hoje nos Estados Unidos a um Paul Auster:
- Há não muito tempo, apenas escritores do nível de um Vladimir Nabokov é que eram qualificados como grandes autores.
Também não escondeu seu desconforto com o fato de Paulo Coelho estar em segundo lugar numa lista que circula na internet, a dos escritores brasileiros mais admirados (Monteiro Lobato encabeça a relação). Manifestou espanto ainda ao ter tomado conhecimento de uma atividade da programação da Feira de Porto Alegre: um encontro da série "Leituras Compartilhadas", anunciado da seguinte forma: "11 Minutos - Charles Kiefer compartilha, como leitor-guia, o prazer de ler Paulo Coelho." Cíntia Moscovich afirmou que, mesmo não tendo estado presente no evento realizado no dia 4, tinha certeza de que o patrono da Feira não teria feito um ato de louvor; lembrou inclusive um comentário do patrono, de que é através dos lucros proporcionados pelas vendas de autores como Paulo Coelho que as editoras conseguem recursos para investir no lançamento de jovens autores. Monteiro respondeu que gostaria que Kiefer estivesse certo em seu raciocínio, mas não acredita muito nessa possibilidade.
Kiefer fala de Paulo Coelho - Ouvido com exclusividade pelo site Jornalismo Cultural no dia 8, o patrono Charles Kiefer confirmou que são os lucros gerados pela venda de autores como Paulo Coelho que permitem às editoras investir no lançamento de muitos outros autores, com maior qualidade artística. E negou que o evento do dia 4 tenha se constituído num elogio ao livro 11 Minutos:
- Eu dediquei onze minutos para ler o livro 11 Minutos e tive que parar, porque achei horrível, não gostei do livro. Na verdade, eu fiz uma longa exposição, mostrando pra platéia as diferenças entre a literatura de mercado (um conceito que circula na área da Sociologia da Literatura) e a literatura, que chamei ali de literatura artística. Na literatura de mercado, a gente teria Morris West, Sidney Sheldon, Paulo Coelho; na literatura artística, Tchecov, Stendhal, Flaubert, Raduan Nassar. Nenhum professor (de Literatura) - e é isto que eu sou, mais que um escritor - vai dizer, de sã consciência, que um Paulo Coelho se equivale a um Raduan Nassar, de jeito nenhum.
Kiefer estabeleceu como traços distintitivos entre as duas espécies de literatura a produção e o consumo. Na literatura de mercado, o escritor pensa na venda; já o autor de literatura artística está preocupado com sua própria subjetividade.
- Do ponto do consumo, eles também são diferentes. A literatura de mercado circula entre o público não-especializado. Um Paulo Coelho é pouco lido na universidade ou por outros escritores - enfim, por aqueles elementos do sistema literário que compõem o cânone.
A única equivalência que Kiefer encontra entre Paulo Coelho e autores da literatura artística é que o autor de Onze Minutos se dedica à ficção; seus livros não são de auto-ajuda:
- Ele trata sempre de um tema mítico-místico, oferecendo uma panacéia para a população. Ele faz ficção, ele inventa histórias. Agora, se essas histórias são boas ou não, aí são outros quinhentos. Elas são fantasiosas, românticas, mal-acabadas, mal construídas, com uma linguagem que beira a literatice, com figuras de linguagem paupérrimas, com lugares-comuns entrondosos, com erros gramaticais... Ele não permite que seus livros sejam revisados no Brasil porque considera seu texto como sagrado. Bom, um escritor que considera o próprio texto sagrado, pra mim, eu não posso levá-lo em consideração como escritor. Pode ser um bom marqueteiro, mas não um bom escritor.
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