100% filósofa - Em debate com a jornalista Cláudia Laitano,
realizado na tarde do domingo, 9 de novembro, a filósofa Márcia
Tiburi anunciou que não pretende seguir escrevendo livros de ficção
nem artigos para revistas - à exceção da Cult. Sua
idéia é dedicar-se exclusivamente ao que a alegra: a filosofia.
Trocando em Miúdos - Na Tenda de Pasárgada,
na quarta, 5 de novembro, o escritor Luiz Paulo Faccioli fez uma leitura pública
de seu conto "Depois que ele chegou", inspirado na música "Maninha",
de Chico Buarque. As sugestões juninas da letra ("se lembra da fogueira,
se lembra dos balões") originaram um conto em que uma festa de São
João pouco animada marca o fim da paixão não-correspondida
de um menino. Todos os 13 contos do livro Trocando em Miúdos foram
escritos a partir de músicas de Chico Buarque, não dependendo do
conhecimento prévio das canções para serem entendidos ou
apreciados.
Quem forma o leitor adulto? - Os escritores André
Neves e Lenice Gomes abriram o recital Manuel Bandeira - Eternamente Estrela,
realizado na Tenda de Pasárgada, na quarta, 5 de novembro, com o poema
"Trem de Ferro". Justificaram depois que a escolha se deveu ao refrão
"pouca gente pouca gente pouca gente" - e, realmente, o público
que prestigiava o recital não era muito numeroso. Isto, aliás, tem
acontecido com boa parte dos eventos da parte adulta da Feira, salvo quando o
autor ou o tema abordado são muito célebres. Não é
de espantar que isso tenha causado estranheza a autores que geralmente trabalham
com o público infantil: devido ao trabalho de formação de
leitores infantis, realizado continuadamente em escolas, os eventos da área
infantil da Feira sempre têm grande público, informado e interessado.
O mesmo não ocorre em relação ao público adulto. Vamos
pegar o caso específico de Pernambuco, terra natal de André e Lenice
e estado convidado da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. Embora há
praticamente um ano a Câmara Riograndense do Livro, organizadora da Feira,
tivesse proposto a homenagem, logo aceita pelo governo pernambucano, nada se fez
ao longo deste período no sentido de promover e divulgar a literatura daquele
estado junto ao público gaúcho. Assim, as pessoas que têm
comparecido aos recitais e debates com autores como Fernando Dourado, Homero Fonseca,
Ronaldo Correia de Brito e outros são os que já conheciam, por conta
própria, suas obras, ou mesmo os que tiveram seu interesse despertado a
partir da homenagem na Feira. Até aí, tudo bem, se fazem presentes
os leitores interessados, mas, efetivamente, sem um trabalho prévio de
divulgação não há como esse número ser muito
expressivo.
Machado de Assis comentado - Vários
eventos da Feira homenageiam Machado de Assis, no ano em que se completa um século
da sua morte. Um debate na tarde da segunda, 3 de novembro, no Centro Cultural
Érico Verissimo, teve como assunto a recente edição pela
L&PM do texto fixado dos três principais romances de Machado: Memórias
Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.
Participaram da mesa Luís Augusto Fischer, idealizador da edição,
Carolina Chang, responsável pela editoração da obra, e os
professores de Literatura Antonio Marcos Vieira Sanseverino, Carla Vianna e Homero
José Vizeu Araújo, que escreveram comentários e elaboraram
as notas das edições. Carla chamou a atenção para
o narrador pouco comum de Quincas Borba - o livro é todo narrado
em terceira pessoa, mas este narrador supostamente neutro volta e meia emite opiniões,
além de ir aos poucos incorporando a loucura que acomete Rubião
(chega, por exemplo, a falar na vitória de Napoleão III sobre Guilherme
I na Guerra Franco-Prussiana de 1870, quando na realidade aconteceu o contrário).
Já Sanseverino disse que hoje quem vai ler Memórias Póstumas
de Brás Cubas já tem consciência de que Machado inovou
ao apresentar um narrador defunto, mas que não há mais como medir
o impacto que isso causou a quem, em 1880, leu pela primeira vez este romance
em folhetim.