Enviado pelo Comitê Intertribal (ITC)
em 21/1/2008
O Comitê Intertribal (ITC) vem atuando ao longo dos anos como uma organização indígena independente e autônoma, sempre na busca de parceiros honrados para determinadas missões de afirmação da identidade cultural indígena, conhecimentos tradicionais e espiritualidade e principalmente nas atividades do fortalecimento físico, auto-estima e resgate de valores através dos Jogos dos Povos Indígenas, evento esse de renome nacional e internacional.
O ano de 2007 se configurou num dos anos de grande envergadura para os Povos Indígenas, principalmente na realização da I Taça de Futebol das Nações Indígenas em Juiz de Fora-MG e os IX Jogos dos Povos Indígenas realizados em Recife-PE, onde a juventude indígena demonstrou a superação de vários preconceitos e a recuperação de valores abandonados. O destaque especial é o crescimento da compreensão da sociedade nacional como parte desse processo como contrapartida de um País de raiz essencialmente indígena, embora não admitido por diversos interesses sobre os recursos naturais e minerais das terras.
Mas o maior destaque foi receber o convite da Secretaria Executiva do Ministério
do Esporte para Jogos Panamericanos, quando o professor Ricardo Leiser, em plena
Semana do Índio, em abril de 2007, solicitou um estudo e proposta do
Comitê Intertribal para a possibilidade de contemplar a participação
indígena nesse evento. Carlos Terena, coordenador dos Jogos dos Povos
Indígenas, sugeriu então a passagem da Tocha do PAN numa terra
indígena, já que o lançamento da mesma havia sido a partir
da região dos Aztecas no México.
Os desdobramentos culminaram em reuniões com Mr. Simon Wadley, do Cerimonial
Internacional da Tocha do PAN, no sentido de vender a idéia da passagem
em terras indígenas, já que isso traria dividendos para os direitos
indígenas, com o argumento de que Índio e Terra não podem
se separar. Uma outra idéia seria a promoção de uma troca
de tochas, onde os indígenas construiriam uma réplica típica
para marcar essa atividade histórica.
Carlos Terena, que criou várias marcas dos Jogos dos Povos Indígenas,
transportou seu imaginário para a concretização de uma
réplica da tocha do PAN, mas não tinha as medidas por envolver
nesse caso patrocinadores e segredos típicos dos grandes eventos; mesmo
assim, acreditando na proposta indígena e na seriedade do evento, os
organizadores internacionais do PAN autorizaram também em segredo, encaminhar
ao Comitê Intertribal as medidas oficiais.
Assim nasceu a Tocha do PAN tipicamente indígena, respeitando o desenho
oficial, feito em madeira da Amazônia e composto por um pouco de terra,
água e claro, o fogo sagrado, que foi presenteado aos organizadores dos
Jogos Panamericanos como prova de amizade e de respeito mútuo entre os
competidores, patrocinadores e organizadores governamentais.
No dia 24 de novembro de 2007, o Ministro do Esporte, Orlando Silva, perante
mais de mil guerreiros indígenas consolida o reconhecimento dos esportes
tradicionais indígenas entregando uma cópia da Tocha do PAN ao
Presidente do Comitê Intertribal, Marcos Terena.
Com esse gesto o Ministério do Esporte ativa um sistema de valores indígenas
de caráter nacional de criação indígena, como soberania
e autonomia de cada um dos 220 Povos Indígenas do País, cuja riqueza
cultural, o patrimônio humano e ambiental só serão assegurados
com a demarcação das terras ou habitats tradicionais.
Aparentemente os Jogos dos Povos Indígenas e a passagem da Tocha do
PAN por uma terra indígena são apenas eventos desportivos, mas
para nós indígenas, mais do que isso, é afirmar nossa relação
com a terra e a construção de um outro mundo possível.
A réplica da Tocha do PAN, juntamente com a Tocha Indígena, está exposta no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília.