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IX JOGOS DOS POVOS INDÍGENAS:
ÁGUA É VIDA, DIREITO SAGRADO QUE NÃO SE VENDE

Edição: Fabio Gomes
(a partir de material da Assessoria de Comunicação
da Prefeitura do Recife e da Representação
Regional Sul do Ministério da Cultura)

A cada dois anos, os povos indígenas brasileiros reúnem-se num grande evento - os Jogos dos Povos Indígenas - no qual, embora exista a disputa presente em várias modalidades esportivas, o objetivo não é exatamente superar o adversário - até porque as equipes não se consideram inimigas. O líder indígena Marcos Terena, da ONG Povos da Floresta, explicou que, em seus Jogos, os índios realizam uma congregação entre povos, sem vencedores e vencidos:

- Nossos Jogos têm o objetivo de cultivar a espiritualidade e divulgar nossa cultura como forma de conscientizar a sociedade brasileira sobre nossa importância e nossos direitos.

Terena fez esta declaração durante a entrevista coletiva em Recife que antecedeu a abertura dos IX Jogos dos Povos Indígenas, realizados na capital pernambucana e também na vizinha Olinda de 23 de novembro a 1º de dezembro de 2007 - as datas são estabelecidas a partir do calendário lunar seguido pelos índios. Com o lema Água é vida, direito sagrado que não se vende, esta edição dos Jogos foi realizada pelas comunidades indígenas em parceria com quatro Ministérios (Esporte, Educação, Justiça e Cultura), Comitê Intertribal - Memória e Ciência Indígena, Funai, Funasa, Caixa Econômica Federal, governo de Pernambuco e prefeituras do Recife e de Olinda.

Ainda na coletiva do dia 23, o diretor da autarquia que administra o ginásio Geraldão, Jamerson Almeida (que representou no evento o prefeito João Paulo), destacou a importância do evento, ressaltando seu caráter de "divisor de águas" para a política federal de esporte e lazer direcionada aos índios:

- A partir destes Jogos, o governo Lula começa a aprofundar as relações com os índios brasileiros, com ênfase na elaboração de uma política nacional que priorize as diretrizes traçadas pelos próprios índios.

Participaram dos jogos representantes dos povos Aikewara (PA), Assurini do Xingu (PA), Assurini (PA), Atikum (PE), Bakairi (MT), Bororo (MT), Fulni-ô (PE), Gavião Kyitatêje ou Parkatejê (PA), Javaé (TO), Kaingang (PR), Kambiuá (PE), Kanela Ramkokamekra, Kapinawá (PE), Karajá (TO), Kayapó (PA), Krahô (TO), Kuikuro (MT), Matis (AM), Manoki (MT), Nambikwara (MT), Pankará (PE), Pankararú (PE), Paresi Halílti (MT), Pataxó (BA), Pipipã (PE), Rikbaktsa (MT), Suruwará (RO), Terena (MS), Tenharim (RO), Truká (PE), Tuxá (PE), Wai Wai (PA), Xavante (MT), Xerente (TO), Xikrin (PA), Xokleng (SC-PR), Xucurú (PE), além de representantes de entidades ligadas aos índios, como a Apoinme (Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo) e a Copipe (Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco), e representantes de povos canadenses e australianos.

O público teve livre acesso a todas as atividades, que aconteceram em vários pontos da região metropolitana: as disputas esportivas foram sediadas na arena montada na praia de Bairro Novo, em Olinda, com exceção dos jogos de futebol, que aconteceram no campo do Bueirão, na Torre, em Recife; também na capital, o ginásio Geraldão concentrou as atividades culturais e serviu ainda de alojamento aos cerca de mil índios que participaram dos IX Jogos. O ginásio foi adaptado para abrigá-los: a pedido dos organizadores, arquitetos deram ao refeitório e ao acampamento estruturas que lembrassem as aldeias dos diversos povos.

Abertura ritual

Na tarde da sexta, 23 de novembro, os Jogos tiveram sua abertura ritual marcada pelo acendimento do fogo espiritual por representantes das nações Karajá e Xikrin, na Praia do Pina, nas proximidades do Cassino Americano.

A cerimônia em que o fogo foi aceso de forma tradicional, com uso de materiais utilizados pelos povos indígenas há milhares de anos, aconteceu perto do pôr-do-sol. Pouco antes, os Xikrin e Karajá presentes dançaram, evocando os ancestrais em louvor aos elementos que compõem a natureza: terra, fogo, água e ar.

- Esse é um momento especial, quando o encontro entre os povos indígenas é celebrado às margens do grande rio (o Amazonas)" - explicou Marcos Terena.

Abertura oficial

A abertura solene oficial aconteceu na tarde do sábado, 24 de novembro, na arena montada no Bairro Novo, em Olinda. A partir das 15 horas, índios de 8 tribos pernambucanas levaram a tocha acesa no Marco Zero, no Recife Antigo, percorrendo a av. Alfredo Lisboa, ponte do Limoeiro, av. Arthur de Lima Cavalcante, av. Cruz Cabugá e seguindo pela PE-01 até a arena em Olinda, para o acendimento da pira dos Jogos.

A cerimônia foi aberta por um ritual sagrado visando o sucesso do evento. Logo após, o guerreiro Zenazokenaé acendeu tochas em torno da arena, passando-se ao anúncio de cada delegação participante e à manifestação das autoridades presentes.

O Ministro dos Esportes, Orlando Silva, destacou a importância dos Jogos para a valorização dos povos indígenas:

- Este evento é uma celebração dos povos tradicionais do Brasil e um encontro desses povos com as sociedades urbanas. Muitas pessoas terão contato com culturas de povos tradicionais pela primeira vez. O que para muitos era história será vivenciado aqui.

Já Fernando Pankararu destacou a visibilidade que os indígenas ganham com os Jogos:

- É muito importante que o povo de Pernambuco e do Brasil veja que nós existimos e temos uma cultura muito forte e rica.

Augusto Oliveira, pajé do povo Atikum, lembrou a importância da confraternização entre as etnias:

- Acho bom participar para conhecer outras tribos do país e confraternizar com elas.

Após as manifestações, a pira foi acesa, seguindo-se uma prévia da corrida com toras, realizada pelos Xavante. Os homens da tribo fizeram a corrida revezando-se no carregamento de uma tora de buriti com 120 quilos; já as mulheres carregaram troncos de 100 quilos. A cerimônia foi encerrada com queima de fogos de artifício.

Jogos

Os Jogos dos Povos Indígenas tiveram disputa de modalidades esportivas bem conhecidas do público - como arco e flecha, canoagem, arremesso de lança, cabo de força, natação/travessia, corrida de 100m, corrida de fundo, corrida de tora e futebol masculino e feminino - além de esportes tradicionais dos povos indígenas brasileiros. Saiba mais sobre cada um deles:

A movimentação dos atletas iniciou antes mesmo da abertura oficial; na manhã do sábado, 24 de novembro, os jogos de futebol começaram no Campo do Bueirão, dividido em dois minicampos. O futebol jogado pelos indígenas tem as mesmas regras que conhecemos, a diferença está no visual: os jogadores se destacam pela pintura corporal e o uso de colares e brincos.

O torneio de futebol masculino, disputado por 22 etnias, teve como campeões os Bororo, que venceram os Umutina do Mato Grosso por 3 x 1. O torneio feminino, que reuniu 20 etnias, também teve o povo Umutina como vice, pois na decisão o placar apontou 7 x 0 para as Pataxó. As finais do futebol aconteceram na sexta, 30 de novembro.

Fórum

O principal evento paralelo aos IX Jogos foi o Fórum Social Indígena, realizado no Geraldão entre os dias 25 e 27 de novembro. Seu início, na manhã do domingo, 25, foi marcado por uma apresentação especial dos guerreiros e guerreiras da nação Pankararú, de Águas Belas (PE). Na solenidade de abertura, o secretário de Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, declarou que o Fórum Social Indígena e os próprios Jogos são uma forma de resgatar uma luta histórica pelos direitos dos índios, além de tentar reatar laços de cooperação e solidariedade "destroçados durante 500 anos de exploração".

Entre os temas debatidos nos três dias de Fórum, estiveram Esporte tradicional indígena: afirmação étnica e auto-estima, com o professor espanhol Manuel Hernández, da Universidade de Madri, e Identidade Cultural e Educação Indígena - perspectivas, com Lísio Lili, do Parlamento Indígena do Pantanal.

Outros eventos paralelos

O Geraldão abrigou também os outros eventos paralelos aos Jogos. Um deles foi a feira de artesanato, com 23 barracas repletas de maracás, artesanato e artigos de decoração. A estudante Arlete dos Santos assim avaliou a feira:

- Isso aqui é muito lindo, os indígenas são educados e solícitos, e estou levando para casa muitos adereços originais, como colares e pulseiras.

Também foram programadas atividades culturais, das quais podemos citar: pinturas corporais feitas por índias; uma oficina realizada pelo MinC para qualificação dos interessados em inscrever projetos no Prêmio Culturas Indígenas - Edição Chicão Xucuru; e debates sobre diversos temas indígenas. Num deles, a advogada indigenista Tatiana Ujacow, do Comitê Intertribal, destacou a importância das políticas de governos voltadas para os índios:

- É necessário que os políticos valorizem e incentivem a cultura das tribos.

Passeio no Capibaribe

Na tarde da quinta, 29 de novembro, líderes de 25 etnias aceitaram um convite da prefeitura do Recife para um passeio de catamarã pelo Rio Capibaribe. O passeio durou uma hora e meia e partiu do Marco Zero, passando sob as principais pontes do centro da capital - Maurício de Nassau, Buarque de Macedo, Princesa Isabel, Duarte Coelho, Boa Vista e do Limoeiro. No trajeto, os participantes puderam apreciar os manguezais, o casario antigo e edificações históricas, como o Teatro de Santa Isabel, o Palácio do Campo das Princesas e o Cais da Alfândega. O ponto alto do passeio foi a realização de um ritual em que os índios pediram proteção espiritual para as águas do rio.

Sobre o passeio, Marcos Terena, que representava na ocasião o Comitê Intertribal, afirmou:

- Sabemos que o Capibaribe é um grande e importante rio, mas está doente pelos maus tratos do homem branco. Por esse motivo, decidimos pela celebração. Nosso evento aqui em Pernambuco tem como tema principal a água como direito sagrado que não se vende e nada melhor do que conhecer de perto o principal rio recifense.

O nome "Capibaribe" vem do tupi Caapiuar-y-be ou Capibara-ybe (ou ainda Capibara-ipe), significando rio das capivaras (ou dos porcos selvagens). O rio nasce no município do Brejo da Madre de Deus, na serra do Jacarará (divisa entre Pernambuco e Paraíba) e percorre 250 quilômetros até desaguar no oceano Atlântico no Recife.

Corrida e encerramento

O final dos IX Jogos foi assinalado por uma corrida nas proximidades do Geraldão, na manhã do sábado, 1º de dezembro. Cerca de cem indígenas de 26 etnias percorreram 3 mil metros em ruas do bairro da Imbiribeira.

Um dos participantes da corrida, o índio Alexandre, da aldeia Atikum de Carnaubeira da Penha (PE), assim comentou a participação de seu povo nos Jogos:

- Para o indígena, o mais importante não é ganhar, mas celebrar e brincar. Esses Jogos serviram para unir ainda mais os povos de diversas etnias brasileiras. Nossa comunidade foi vencedora no cabo de guerra, em Olinda, mas todos os participantes ganharam medalhas.

À corrida, seguiu-se ato oficial de encerramento, realizado na arena do Bairro Novo.

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