Por Fabio Gomes
O Prêmio Cultura Viva é uma ação do Programa Nacional
de Cultura, Educação e Cidadania - Cultura Viva, iniciativa do
Ministério da Cultura patrocinada pela Petrobras, apoiada pelo Canal
Futura e coordenada pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação,
Cultura e Ação Comunitária). Conheça a seguir os
projetos vencedores da 2ª edição do prêmio, anunciados
em cerimônia no Museu do Conjunto Cultural da República (Brasília),
em 18 de dezembro de 2007. O ano citado junto a cada projeto refere-se ao início
da iniciativa.
Na categoria Escola Pública de Ensino Médio, os vencedores
foram:
- 1º Projeto Cultura Casca-Verde, da Unidade Escolar Areolino
Leôncio da Silva (Teresina, PI, 2004) - A iniciativa articula escola,
organização não-governamental, universidade e a comunidade
escolar, localizada na zona rural de Teresina, tendo a expressão artística,
o contato com a cultura local tradicional e a possibilidade de geração
de renda, por meio da produção artesanal, como elementos de
trabalho e enfrentamento das condições de exclusão social.
A iniciativa integra trabalho continuado com jovens em oficinas, o diálogo
entre gerações, por meio do contato com experiências culturais
tradicionais, apresentações, seminários e ainda o registro
de práticas culturais por meio de CDs e DVDs, o que garante a preservação
e a socialização dos saberes locais.
- 2º Projeto Rádio Instrumental Educativa CBM, da
EEEFM Clóvis Borges Miguel (Serra, ES, 1999) - A Rádio Instrumental
Educativa CBM foi criada visando proporcionar aos alunos aprendizagem proveitosa,
prazerosa e lúdica, por meio de uma ação que estimule
a participação ativa e crítica. Desde então, propicia
aos alunos, autores da programação diária e a toda comunidade
escolar, a possibilidade de produzir e socializar informações
e campanhas de interesse de todos. A riqueza da programação
da rádio trouxe mudanças significativas na atitude dos alunos
e deu origem a novas iniciativas que atingiram, somente em 2006, quase 4000
pessoas entre autores e ouvintes.
- 3º Projeto Brasileirinho,
os Tons da Aquarela Cultural de Nosso País, do Colégio
Estadual Vicente Jannuzzi (Rio de Janeiro, RJ, 2005) - Diante da constatação
do grande desconhecimento da cultura brasileira (principalmente, música
e seus compositores populares, cantores, artistas, folclore e tradições)
por parte dos alunos - 70% dos quais moradores da comunidade carioca Cidade
de Deus -, foi proposta a iniciativa com foco no CD Brasileirinho,
de Maria Bethânia. Ele se configurou como ponto de partida para a produção
de textos, poesias, crônicas, realização de peça
teatral, maquetes e debates. Essas atividades, além de propiciar aprendizagem
prazerosa aos alunos, envolveram toda a comunidade e deram espaço aos
artistas locais.
Na categoria Fundação ou Instituição Empresarial,
venceram:
- 1º Projeto História da Gente, da Fundação
Palavra Mágica (Ribeirão Preto, SP, 2003) - Programa de educação
para a cidadania, realizado em parceria com grupos de terceira idade e escolas
públicas, busca recuperar e valorizar a história de Ribeirão
Preto. Por meio da narrativa de idosos que trazem na memória experiências
de vida relacionadas à história de suas comunidades, a iniciativa
proporciona aos alunos conhecer, respeitar e participar da construção
da história local. Garante, ainda, a implantação de bibliotecas,
formação de professores e oficinas literárias. Já
atingiu 200 idosos e 4.000 alunos que produziram 7.200 textos sobre a história
local.
- 2º Ação Educativa da Bienal do Mercosul,
da Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul (Porto Alegre,
RS, 1996) - Realizada em 31 municípios gaúchos no contexto da
Bienal do Mercosul, a iniciativa pretende a democratização do
acesso à arte e articula a capacitação de professores
para o trabalho dos conteúdos das mostras. Garante, também,
o transporte e o acesso gratuitos às exposições para
educadores e alunos de boa parte das escolas públicas da periferia
de Porto Alegre. Milhares de alunos já se beneficiaram da iniciativa
nas várias edições da Bienal, que passou a contar com
curador pedagógico e um projeto pedagógico que engloba a formação
de 300 mediadores e de 7.000 professores, além de materiais educativos
distribuídos às escolas.
- 3º Cultura e Cidadania, da Fundação Acesita
para o Desenvolvimento Social (Timóteo, MG, 1994) - A iniciativa Cultura
& Cidadania envolve nove projetos que integram exibição
de vídeos, exposições de arte e de recuperação
da memória, artes cênicas e música, cursos e oficinas
que garantem aprendizagem, acesso à cultura e fortalecimento da identidade
regional. As pessoas da comunidade podem se cadastrar, tornando-se "Amigos
da Cultura", para receber a programação bimestral que é
enviada, atualmente, a 8.000 pessoas. Em 12 anos, 690.555 pessoas já
participaram das atividades da iniciativa em 7 municípios mineiros
e em São Paulo, e também dos projetos de circulação
de espetáculos de teatro, música e dança.
Na categoria Gestor Público, venceram:
- 1º Programa de Artesanato da Paraíba "A Paraíba
em suas mãos", da Secretaria de Turismo e Desenvolvimento
Econômico do Estado da Paraíba (Água Branca, PB, 2003)
- O programa promove o desenvolvimento do artesanato em 110 municípios
da Paraíba, visando à sustentabilidade econômica e a preservação
da identidade e da cultura popular do estado. Atua nos elos da cadeia produtiva
- desenvolvimento e melhoria do produto, organização, capacitação
gerencial, promoção e comercialização. Integra,
ainda, o projeto Fazer dos Mestres que transmite aos jovens o patrimônio
passado de geração para geração, por meio do resgate
das memórias de ofício do artesanato. Já atendeu a mais
de 10.000 artesãos de diversos municípios do estado, em geral
moradores das zonas rurais que têm, em muitos casos, o artesanato como
única fonte de renda e, também, inclui comunidades indígenas
e remanescentes de quilombos.
- 2º Rede Cidadania de Londrina, da Prefeitura Municipal
de Londrina (Londrina, PR, 2001) - O crescimento rápido da cidade não
contou com a construção de espaços de lazer e cultura
fora do eixo central, o que gerou exclusão, falta de acesso e participação
nas práticas culturais. A iniciativa visa reverter esse quadro por
meio da democratização do acesso à formação,
fruição e produção cultural, em projetos de oficinas
de criação artística, oferecidos a crianças e
jovens. Além disso, possibilita a intensa circulação
cultural de processos criativos e a oferta de programação cultural
em praças, escolas, áreas verdes e espaços públicos
- o que possibilitou só, em 2007, a implantação de 50
projetos patrocinados pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura,
ofertando 270 oficinas - com 6.786 vagas - em todas as regiões do município.
- 3º Projeto Talentos da Cultura, da Secretaria de Cultura
do Estado do Ceará (Fortaleza, CE, 2005) - A iniciativa tem como objetivo
a promoção da cidadania e do desenvolvimento cultural no Ceará
por meio de práticas artísticas e culturais em 31 municípios
e bairros com baixo Índice de Desenvolvimento Municipal e Índice
de Desenvolvimento Municipal por Bairro (IDM e IDMB, respectivamente). São
oferecidas capacitação e bolsas a 1.120 jovens estudantes, artistas
e líderes comunitários - Talento Jovem, Bolsa Artista e Agente
Cultural - para que desenvolvam atividades artísticas e culturais em
suas comunidades. À iniciativa soma-se à Bolsa Memória,
concedida a idosos "guardiões" da memória local, que
repassam seus saberes e fazeres referentes à cultura e à história
local para a comunidade. A iniciativa atingiu 300.000 pessoas em 2006.
Na categoria Grupo Informal, venceram:
- 1º Meninas de Sinhá - Experiência Cultural Comunitária
(Belo Horizonte, MG, 1998) - No aglomerado Alto Vera Cruz, área de
alto risco social que fica a leste de Belo Horizonte, um grupo de mulheres
começou a se reunir para conversar, bordar e cantar. Do encontro nasceu
o grupo Meninas de Sinhá que, além de vivenciar, preservar e
difundir as cantigas de roda, cirandas e brincadeiras dos tempos de infância,
se estruturou como instrumento de valorização pessoal e comunitária,
realizando debates, rodas e brincadeiras, com foco na mobilização.
O grupo se apresenta em diversos espaços, compartilha atividades com
outros grupos e já gravou CDs que difundem as cantigas e valoriza suas
integrantes.
- 2º Maadzero Keerada Inewikite Irapakape - Grupo de Dança
Baniwa do Mestre Luiz Laureano (São Gabriel da Cachoeira, AM, 1990)
- O grupo dos Baniwa, do Alto Rio Negro, em contato com os brancos, perdeu
as tradições ancestrais e mudou hábitos cotidianos. Vinte
famílias Baniwa Hoohodene conseguiram, apesar do deslocamento para
a zona periurbana de São Gabriel, manter parte das tradições
e hábitos de vida da terra natal. Seu grupo de dança tradicional,
com 100 integrantes, participa dos eventos culturais, transmitindo e valorizando
seus cantos, danças e músicas, que chegaram a 3.000 espectadores.
O grupo está erguendo uma maloca tradicional - a "Casa de Conhecimento"
- que será espaço de iniciação artística
de jovens. A comunidade foi reconhecida no Plano Diretor do Município
como Zona Comunitária Indígena.
- 3º Rede Movimento de Teatro Amador da Bahia (São
Sebastião do Passe, BA, 2004) - Rede composta por 40 grupos de teatro
e dança de pequeno porte de Salvador, Alagoinhas, Feira de Santana
e municípios do interior da Bahia, com função sociocultural,
educacional e de formação da cidadania. Tem por objetivo reunir
e mobilizar mais de 600 integrantes para ações conjuntas, formação
nas áreas cênicas e de gestão, registro e socialização
de informações e, ainda, realização de encontros
e seminários para troca e sistematização de idéias.
Na categoria Organização da Sociedade Civil, venceram:
- 1º Rede Enraizados, da Cia. Encena (Nova Iguaçu,
RJ, 2005) - Organizada em torno da cultura hip-hop, a rede integra hoje 16
organizações que compartilham conhecimento, auto-ajuda, capacitação
e articulação para a militância cultural nas periferias
dos grandes centros, marcadas pela exclusão social e pela falta de
alternativas para os jovens, criados em meio ao fogo cruzado de policiais,
milícias e bandidos. Luta pelo acesso à produção,
à expressão e à valorização das diferentes
manifestações culturais, fortalecendo o ativismo cultural e
o protagonismo juvenil. O hip-hop, a música, o teatro, o audiovisual,
as rádios comunitárias e a produção de mídias
são elementos que formam e fortalecem a auto-estima dos jovens envolvidos.
O projeto desenvolve-se em cidades de várias regiões: Florianópolis
(SC); Nova Iguaçu, Itaboraí, Rio das Ostras e São Gonçalo
(RJ); São Paulo (SP); Juiz de Fora (MG); Cuiabá (MT); Brazlândia
(DF); Coruripe (AL); João Pessoa (PB); Natal (RN); Salvador (BA); Palmas
(TO); Rio Branco (AC) e Macapá (AP).
- 2º Coleção Narradores Indígenas do Rio
Negro: Memória, Identidade e Patrimônio Cultural, da Federação
das Organizações Indígenas do Rio Negro (São Gabriel
da Cachoeira, AM, 1980) - Como forma de valorizar e preservar as culturas
das centenas de comunidades indígenas do Rio Negro, a iniciativa, protagonizada
pelos próprios índios, coleta e registra os saberes dos diferentes
grupos e publica uma coleção de livros. Os integrantes da comunidade
têm as suas narrativas valorizadas e divulgadas, permitindo a preservação
e a transmissão dos saberes acerca dos ritos, hábitos, crenças
e costumes de cada um dos grupos. Dando voz aos índios, a iniciativa
promove o diálogo entre as diferentes culturas e as novas gerações,
fazendo desse patrimônio elemento fundamental para a preservação,
a socialização e a valorização da contribuição
cultural dos índios. A partir da publicação são
elaborados materiais e livros destinados às escolas indígenas.
- 3º Rabecas da Amazônia: Preservação e
Ensino, da Associação Bragantina de Música (Bragança,
PA, 2005) - Bragança tem forte herança da colonização
portuguesa, com casario e igrejas do século XVIII, e dificuldade de
acesso à aprendizagem e às apresentações musicais.
A iniciativa tem como foco manter viva a tradição musical por
meio da formação de músicos, das apresentações
e do uso da rabeca, instrumento musical que estava em vias de desaparecer
por ter um único tocador no município. A escola de música
acolhe crianças e jovens que recebem ensino musical de qualidade, mantém
a primeira e única orquestra de rabecas da Amazônia, com 35 instrumentistas,
e já formou 30 novos artesãos, que têm na lutheria seu
meio de trabalho e sobrevivência, além de recuperar a cultura
do município, o que tem proporcionado crescimento e aprendizagem a
toda a comunidade.
Na categoria Ponto de Cultura, venceram:
- 1º Centro Cultural Kainhgág Jãre,
do Instituto Kaingang (Ronda Alta, RS, 2006) - Num contexto de discriminação
da cultura indígena, a iniciativa tem por foco revitalizar e fortalecer
todos os aspectos da cultura Kaingang (lendas, contos, danças, artesanatos,
pinturas, vestimentas) na região da Serrinha, no Rio Grande do Sul.
A iniciativa envolve registro e divulgação da história
dos idosos, elaboração de material didático específico
para escolas indígenas, ações de valorização
da cultura, capacitação com foco na melhoria das condições
de vida da comunidade e ainda a criação de espaço de
visitação permanente para socialização da cultura
Kaingang por meio de exposições, apresentações
e comercialização de artesanato indígena.
- 2º Maracatu Piaba de Ouro (Olinda, PE, 1977) - O Maracatu
Piaba de Ouro, com 30 anos de existência, é uma das mais tradicionais
agremiações de Pernambuco. Faz da participação
nesse folguedo tradicional uma oportunidade para formar jovens para o mercado
de trabalho no segmento da arte, em atividades como oficina de bordados, adereços
carnavalescos, dança e confecções de instrumentos musicais.
Articula o acesso à história do maracatu, a vivência e
o aprendizado das danças com apresentações e oficinas
que permitem a inserção social por meio da cultura tradicional.
- 3º Humbiumbi: Raízes Africanas, do Humbiumbi Arte,
Cultura e Educação (Belo Horizonte, MG, 2006) - Iniciativa com
foco nas ações artístico-culturais que propiciam aos
jovens conhecer, refletir e atuar como protagonistas, tendo como referência
a cultura africana e sua relação com a cultura mineira. O processo
de trabalho integra oficinas de pesquisa histórica, criação
artística, design gráfico, estamparia, música, dança
e canto, e propicia o acesso e a valorização da cultura africana.
A participação dos jovens também nas ações
de desenvolvimento pessoal e social e de saúde propicia a eles uma
formação como agentes de transformação nas comunidades
onde estão inseridos. A iniciativa produz, ainda, material educativo
para ser disseminado em escolas públicas e a reflexão e o debate
sobre as raízes africanas na formação da identidade das
comunidades locais.
Destaque Cultura Viva:
- Circo de Todo Mundo, do Centro de Recreação, de Atendimento
e Defesa da Criança e Adolescente (Belo Horizonte, MG, 1993) - Criada
pelo Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, a iniciativa busca recuperar
os direitos e o exercício da cidadania, proporcionando a crianças
e jovens em risco social ações que integram atividades artísticas
e culturais, defesa e garantia de direitos, estímulo ao processo educativo
da escola formal e formação profissional. A iniciativa propicia
inclusão, por meio da participação em oficinas de circo,
estímulo à leitura e à escrita, informática, formação
de contadores de história, entre outros, o que dá oportunidade
de construção de um projeto de vida e ainda articula redes com
grupos e organizações com foco na possibilidade de mudança
da realidade pessoal e comunitária das crianças e jovens. Inscreveu-se
como
- Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali, da Associação
do Conselho da Escola Pamáali (São Gabriel da Cachoeira, AM)
- O principal objetivo da escola é a formação do cidadão
Baniwa e Coripaco voltada para a responsabilidade dos trabalhos nas comunidades,
a criatividade, o respeito aos seus próprios valores no diálogo
intercultural e a qualificação para promover ações
de sustentabilidade. A escola atende adultos e jovens de 32 comunidades do
rio Içana e seus afluentes Aiary e Cuiary. Já formou 40 alunos,
que hoje atuam como pesquisadores, professores e apoiando as associações
de base em atividades político-sociais de economia sustentável
(piscicultura, avicultura, artesanato, pesquisa de manejo pesqueiro e ambiental).
- Grãos de Luz e Griô: A tradição viva,
da Associação Grãos de Luz (Lençóis, BA,
2001) - A iniciativa tem como foco a valorização dos griôs
e mestres da tradição oral como sujeitos fundamentais para o
fortalecimento da identidade das comunidades da região de Lençóis,
na Chapada Diamantina (incluindo Iraquara e Rio de Contas). Os currículos
das escolas públicas passaram a integrar a ação griô,
o que proporciona aos alunos a participação na rede de transmissão
oral, na qual são fortalecidos os vínculos, a convivência
e as aprendizagens entre todas as idades. Atividades durante todo o ano articulam
a comunidade a uma ampla rede de atores sociais e integram aulas espetáculo,
trilhas griô de educação, cultura oral e turismo comunitário,
produção de livros, CDs, jogos educativos e artesanato em retalhos,
envolvendo 1.550 crianças e adolescentes.
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