Por Fabio Gomes
Você já notou que o Brasil é o único país do mundo em que as emissoras de televisão são também produtoras do que veiculam? O ator Anselmo Vasconcellos já, e esta questão o preocupa há bastante tempo. Foi a partir disso que ele tomou a iniciativa de escrever o argumento do telefilme O Último Páreo, rodado em 2002 e exibido em sessão de pré-estréia no SESC-Centro (Prto Alegre), em 13 de fevereiro de 2007. No elenco, além do próprio Anselmo, estão Xuxa Lopes, Paulo César Peréio, Camila Amado, Cassiano Carneiro e Bruna Di Tullio; o roteiro é de Gilberto Loureiro e a música, de Victor Biglione, com direção de Emiliano Ribeiro.
O formato "telefilme" combina o vigor da ação concentrada do cinema com as especificidades do veículo televisão. A duração total de O Último Páreo é de 60 minutos, divididos em 5 blocos de 12 minutos; cada um termina com uma situação "gancho" para prender a atenção do espectador, jogando com sua expectativa para o bloco seguinte. As próprias emissoras já se dedicaram a este formato (a TV Globo, com os Casos Especiais, e o SBT com o Teleteatro), mas o abandonaram, preferindo apostar nas novelas.
A ação se passa numa única noite, no apartamento de Armandino (Anselmo), que o divide com a amante Lara (Bruna, estreando em cinema). Armandino está numa situação-limite: tem até o final da última corrida de cavalos da noite para pagar o que deve (R$ 50 mil) ao bookmaker Tucão (Peréio, do qual só aparece a boca e a barba em cenas em preto-e-branco). Sem poder sair de casa, ele joga com as emoções de vários personagens: ao amigo Alberto, diz que precisa de dinheiro para pagar os remédios da mãe; da mãe, interpretada por Camila, esconde a situação por que passa; à ex-esposa, Débora (vivida por Xuxa Lopes), conta uma mentira para ajudá-lo a obter o dinheiro de que precisa. Cassiano Carneiro faz uma rápida participação como Rochinha, o ex-jóquei que, reunindo as condições de apaixonado por Débora e tendo a fama de conhecer as "barbadas" do Jockey, é ponto-chave da trama de Armandino. Lara é a única ligação entre o protagonista e o "mundo lá fora", trazendo-lhe comida e ajudando-o a armar os golpes; ela também é a responsável pelo único momento de felicidade "no presente" de Armandino, ao dividir com ele o chuveiro por alguns segundos. Os outros momentos de felicidade do protagonista, associados à sorte nos cavalos, só surgem nas suas lembranças - mas mesmo na memória vemos sua alegria ir mudando em infortúnio.
Além de uma aposta - no caso, no formato telefilme -, O Último Páreo também representa para Anselmo uma homenagem e um desafio. A homenagem é ao estilo film noir, que sempre o fascinou e que é pouco praticado no Brasil. Já o desafio foi o de viver um protagonista absoluto, que não sai de cena um fotograma sequer; com isto, ele finalmente atendeu a uma sugestão que recebeu do diretor francês Claude Chabrol em 1982, após a exibição de Eles Não Usam Black-Tie no Festival de Cannes.
Sendo a homenagem uma questão muito pessoal, falarei dos outros aspectos. Primeiro, da aposta. Anselmo atingiu seu objetivo: o Canal Brasil comprou os direitos do telefilme; a data de exibição ainda não foi marcada. Segundo, do desafio: o ator mostrou-se um protagonista admirável, com requintes de interpretação - destaco seu tremer de sobrancelhas no segundo bloco, reforçando o choque de Armandino ao receber o ultimato de Tucão.
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