Por Angela Nelly Gomes
Na edição 2007 do CineEsquemaNovo, o público conheceu
a versão cineasta do dramaturgo Roberto Athayde com a exibição
de seu primeiro longa-metragem. Em Selva do Meu Desejo, o diretor funde
ficção e realidade ao colocar dois personagens fictícios
em um ambiente real, numa forma de questionamento dos limites do documentário
e da ficção.
O filme mostra a jornada de uma antropóloga norte-americana e seu guia-motorista
nordestino, que percorrem a rodovia Transamazônica do início ao
fim, com o objetivo de chegar até o Céu do Mapiá para conhecer
a comunidade símbolo do culto ao Santo Daime. Até aí nada
de mais, não fosse pela forma como essa viagem é mostrada e feita.
A antropóloga é um personagem oculto que faz a câmera subjetiva
enquanto dialoga com o guia. Na verdade o ator João Velho, que faz o
guia, é o único ator real do filme. A narração e
falas da antropóloga foram gravadas pela atriz norte-americana Estelle
Parsons (Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1968 por sua participação
em Bonnie and Clyde).
O foco criativo do filme nasce da condução e do perfil dos personagens.
É o olhar deles, seja da antropóloga Mrs. Bynther ou de Pedro,
o guia, que conduz e faz o espectador embarcar também na jornada. O diretor
não lança mão de recursos técnicos complexos, elementos
mais ousados da linguagem cinematográfica, justamente porque a composição
do filme está centrada nos personagens.
Athayde parte do princípio do distanciamento antropológico ou
o olhar etnográfico sobre o outro para construir a narrativa do filme.
E esse é um dos méritos da obra, pois a deixa livre dos estereótipos
e "pré-conceitos" tão visíveis no cinema quando
o tema trata de Amazônia, Norte ou Nordeste, sempre vistos como exóticos,
no pior sentido do termo. O filme não tenta impor, ou não é,
em si, a visão do "civilizado" sobre o "primitivo",
ou do "europeu", ou neste caso, do norte-americano, sobre o "bom
selvagem", embora a personagem-antropóloga esteja nessa viagem buscando
entender o mito do "homem tropical".
O filme flerta com o documentário etnográfico, com o "road
movie", mas não chega a ser nem um, nem outro, o que parece ser
o propósito do autor. As condições de vida do Brasil ao
longo da Transamazônica são mostradas mas não exploradas
a fundo, não há uma imersão mais profunda no próprio
perfil ou subjetividade dos personagens e alguns temas são abordados
de forma superficial, como o próprio culto ao Santo Daime. Porém,
isso não chega a prejudicar a obra em si. Pelo contrário, o conjunto
resulta numa boa composição entre o belo e o simples. O que não
é pouca coisa para uma obra produzida conscientemente, como é
o caso de um filme. Em Selva do Meu Desejo esse veio da simplicidade
aflora e dá o tom do filme, mostrando que para ser criativo ou ousado
nem sempre se precisa ser mirabolante ou complexo.
Selva... é o primeiro longa de Roberto Athayde (filho do imortal
Austregésilo de Athayde), dramaturgo, autor da célebre peça
Apareceu a Margarida (1973) e da adaptação da peça
estrangeira O Mistério de Irma Vap (1986), de Charles Ludlam,
para a montagem de Marília Pêra. A peça interpretada por
Marco Nanini e Ney Latorraca se transformou num dos maiores sucessos da história
do teatro brasileiro.
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