Por Fabio Gomes
O que dizer sobre Língua de Brincar? Que é um documentário que, ao retratar o poeta Manoel de Barros, foge do convencional? Foge, por certo, embora essa "fuga" de um tipo de documentário-com-locutor-que-comece-dizendo: "Fulano de tal nasceu na cidade tal na data tal" esteja quase se tornando uma convenção também. Considero que os diretores Lúcia Castelo Branco e Gabriel Sanna acertaram em cheio quando foram além e buscaram captar em seu filme o que seria um retrato do cinema enquanto poesia.
Sei de pelo menos um filme anterior sobre Manoel de Barros que teve o mesmo
propósito de fuga do convencional: Caramujo-Flor, de Joel Pizzini.
Nesse curta de 1988, enquanto víamos belas imagens do Pantanal e de Campo
Grande, ouvíamos poemas de Manoel na voz de artistas como Ney Matogrosso
e Aracy Balabanian, além de um depoimento do acadêmico Antônio
Houaiss situando a obra do poeta no panorama da literatura - e a fala descompromissada
de amigos como o jornalista Fausto Wolff, contando como é bom bater um
papo com Manoel.
Língua de Brincar avança na linha aberta por Caramujo-Flor:
mostra paisagens do Pantanal, tem poemas lidos por artistas, como Maria Bethânia,
a opinião de especialistas como o português João Barrento,
e a fala dos amigos - a lista aqui aumenta: além de Wolff, temos o ator
Orã Figueiredo, o bibliófilo José Mindlin e outros contando
suas conversas memoráveis com Manoel. E, felizmente, depois de ter visto
Língua de Brincar eu não preciso mais ficar imaginando
como seria bom bater um papo com Manoel: tenho a certeza disso ao ver o poeta
conversar com a equipe de filmagem em várias cenas.
Sim, um dos achados do filme é incorporar à narrativa seu próprio
making-off. Isto ocorre, por exemplo, nos depoimentos: ao invés do clássico
enquadramento fixo em que o depoente parece estar falando sozinho (um padrão
no estilo "documentário convencional"), mostra-se o contexto
em que o depoimento é captado. Sob esse aspecto, o grande momento do
filme é a hora em que Orã Figueiredo fala sobre sua atuação
numa peça feita a partir dos poemas de Manoel. Enquanto o ator fala,
a câmera brinca com suas múltiplas imagens exibidas nos vários
espelhos do camarim do teatro, mudando o ângulo de observação
diversas vezes. Foi um dos momentos em que lembrei desses versos do poema "Uma
Didática da Invenção": Repetir repetir - até
ficar diferente/ Repetir é um dom do estilo.
A idéia da repetição como dom do estilo foi estendida
à estrutura de Língua de Brincar, o que tanto ajuda quanto
atrapalha. Atrapalha por exemplo na seqüência em que, enquanto vemos
uma árvore em preto-e-branco, uma voz feminina repete diversos poemas
curtos definindo pedra, homem, borboleta etc., em português e em espanhol
(para piorar, esta seqüência, é reapresentada na íntegra
após alguns minutos!). A repetição ajuda quando se varia
a forma de fazer os poemas voltar à cena (por exemplo, o poema lido por
Bethânia, "Ruína", já fora lido em off noutra
passagem); ajuda também quando depoimentos longos são divididos
em várias intervenções curtas, de modo a não se
tornarem enfadonhos. Um cuidado que infelizmente não foi estendido à
cena que encerra Língua de Brincar: a da cartomante que vê
no tarô a sorte do filme (sic).
Afora certa coerência com a idéia de incorporar o making-off à estrutura, este final é praticamente uma negação do caráter da obra. Além de a cena nada acrescentar de informativo ou de poético em seus quase sete minutos de duração, ela tem o demérito de tirar o espectador do enlevo a que o levara a cena anterior e que me parecia o final mais adequado a um filme sobre Manoel de Barros: enquanto ouvíamos uma locutora ler os créditos finais do filme, víamos as imagens de coisas ou paisagens identificáveis dando lugar a massas de cores atravessadas a intervalos por linhas luminosas (difícil colocar em palavras isso, desculpem). Confesso que logo de início estranhei, mas em seguida embarquei na proposta e deixei as cores e linhas me levarem ao Pantanal. Vi ali árvores crescendo, animais correndo ou nadando - a vida acontecendo em sua plenitude, enfim. É como se, ao invés da visão de diferentes posições ocupadas por um ser em movimento, eu pudesse, pela vez primeira, ver capturada numa tela de cinema a essência do movimento em si. Tamanha beleza remeteu-me a uma frase do pintor Carlos Vergara: O que está na tela é um pretexto para catalizar áreas sutis no espectador.
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