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DIÁLOGOS CRIATIVOS GARANTEM
A QUALIDADE DE CÃO SEM DONO
Por Fabio Gomes
A rigor, não há muito porque discutir qual arte é "superior",
se a literatura ou o cinema - afinal, são expressões artísticas
distintas. Mas, enfim, a discussão existe (deve ter começado logo
após a primeira adaptação literária) e em geral
atribui a "vitória" à literatura, devido à estimulação
da imaginação do leitor que o livro propicia e que o cinema não
"teria como" fazer, ao entregar "tudo pronto" ao espectador.
Até hoje, pelo visto, os defensores do cinema não tinham um argumento
para contestar os adeptos da literatura. Agora têm: o novo filme de Beto
Brant e Renato Ciasca, Cão Sem Dono (Drama Filmes/ Clube Silêncio,
2007).
O filme tem uma narrativa impressionantemente econômica, sem aquelas
clássicas cenas de "apresentação" dos personagens
e situações, nem longas explicações. Você
não fica sabendo como o casal protagonista Ciro (vivido por Júlio
Andrade) e Marcela (interpretada por Tainá Muller) se conheceu, e aos
poucos vai se dando conta de que isto não faz muita falta, o fundamental
é mostrar a linda história de amor destes dois jovens porto-alegrenses.
Talvez em vez de econômica, a melhor qualificação para a
narrativa pudesse ser solta: a primeira menção ao trabalho
de Ciro (tradutor de textos em russo) surge quase na metade do filme, durante
o jantar oferecido ao casal pelo motoboy que atropelara Marcela, Lárcio
(Marcos Contreras), e sua esposa Ana (Janaína Kremer).
A seqüência mais solta se dá na fase em que Ciro começa
a se mostrar meio sem rumo, quando Marcela se afasta para tratar da saúde.
Há uma longa cena numa danceteria ao som de Planondas, ao final da qual
o protagonista fica com uma moça que recém conhecera (interpretada
por Vanise Carneiro); na cena seguinte, Ciro, de cueca, caminha por um apartamento
que não é o seu, fumando, quando vê um menininho sair de
um quarto e entrar em outro, onde, pela porta entreaberta, avista-se uma moça
deitada. Sem que a câmera se mova, vemos Ciro entrar no quarto, calçar
um pé de meia e começar a calçar o outro; fica evidente
que ele logo depois foi embora. Mas se a moça deitada era a mesma com
a qual ele ficara na boate, cabe ao espectador decidir.
Fica a seu critério também definir a quem o título se
refere. A leitura imediata é de que se trata do cachorro, que no filme
não tem nome (na vida real, foi batizado como Churras). Ele é
o companheiro constante do protagonista: circula livremente pelo apartamento,
segue-o na rua, não o deixa mesmo quando o próprio Ciro se abandona.
Considero que o cão teria entrado na vida do protagonista ao mesmo tempo
que Marcela, de modo que a história abrangeria todo o período
em que Ciro conviveu com o cão, sem jamais porém se considerar
seu dono, e sim um amigo.
Mas para mim o verdadeiro "cão sem dono" é Ciro sem
Marcela. Depois que ela o deixa, ele recusa o único trabalho que aparece
em meses; em seguida, perde a mesada com a qual a família o ajudava;
entrega-se à bebida; e por fim surta, isolando-se de tudo e quase morrendo.
Isto só não acontece porque, após vários dias sem
notícias suas, o pai (Roberto Oliveira) e a mãe (Sandra Possani)
arrombam o apartamento para socorrê-lo. A partir daí, amparado
pela família, Ciro volta a viver, retornando ao convívio dos amigos
do futebol de salão, lendo Sergio Faraco, arrumando emprego numa livraria.
Evita-se o clichezão: em vez de ter como única possibilidade de
sair da sarjeta a redenção pelo amor, o protagonista supera a
adversidade com suas próprias forças, alimentado pelas lembranças
do amor vivido e ajudado por sua rede social (todos o estimulam a acreditar
no sonho, dos amigos do futebol até Elomar, o porteiro do prédio,
vivido por Luiz Carlos Vasconcelos Coelho). Quando a oportunidade de voltar
com Marcela se lhe apresenta, encontra-o reerguido e podendo decidir por si.
Esta é a meu ver a maior de tantas belezas que há em Cão
sem Dono.
Outra beleza é, sem dúvida, o diálogo criativo
com o espectador que a fluidez narrativa do filme permite. Uso esta expressão
porque Brant prefere chamar diálogos, e não alterações,
ao que é mudado na história de um livro adaptado para o cinema.
Eu considero a expressão adequada; acho mais, que tais diálogos
(que só posso qualificar como criativos) não se encerram
na adaptação do livro. Um filme tão bom quanto Cão
sem Dono só pode ser fruto de um intenso diálogo criativo
entre diretores, elenco e equipe técnica; comprove isso vendo o que eles
próprios disseram sobre as várias etapas do trabalho. (Condensei
declarações feitas em Porto Alegre em dois momentos distintos:
na coletiva de lançamento do filme no Unibanco Arteplex em 8 de maio
de 2007 e no debate após uma sessão do filme para estudantes do
curso de Cinema da PUCRS três dias depois).
- A escolha do livro Até o Dia em que o Cão Morreu,
do Daniel Galera, como ponto de partida, já foi pra vir pra cá,
tinha vontade de conhecer melhor Porto Alegre. Antes vinha muito como publicitário,
mas ficava pouco tempo, não entendia a cidade. (Beto Brant)
- O que nos atraiu no livro do Galera foi a história do relacionamento,
as duas pessoas construindo esse relacionamento; a gente começa a história
depois do primeiro encontro deles. Também teve a questão da
dor que faz Ciro buscar a luz, não mais a dor que ele lia na literatura,
mas a dor dele. (Beto Brant)
- O processo iniciou, como com Crime Delicado, lendo o livro com o autor.
(Eu e Renato Ciasca) ficamos quatro dias aqui, lendo, circulando por
Porto Alegre. Ficamos superpróximos, aí começamos a nos
distanciar do autor. Fizemos roteiro com Marçal Aquino e voltamos em
dezembro de 2005 pra fazer a pré-produção. Voltamos a
São Paulo e de janeiro de 2006 em diante ficamos direto aqui até
terminar as filmagens, em abril. (Beto Brant)
- O filme é mais fiel ao livro do que eu esperava. Já sabia
que seria uma reinvenção, muita improvisação na
filmagem. No resultado final, o que mudou era realmente o que precisava mudar,
por ser cinema e não literatura. Fiquei superfeliz com o resultado
final. (Daniel Galera)
- O roteiro pra nós é "literário". Só
filmando com atores é que vamos encontrar o plano, o movimento de câmera,
isso não é definido no roteiro. Ele tem pouca descrição
de imagem, pra não ficar chato de ler. Usei o roteiro na fase de pré,
depois na filmagem não. Tinha o roteiro na cabeça, a intenção
de cada cena. (Beto Brant)
- Começamos contatando Gustavo Spolidoro (da Clube Silêncio),
pedindo que ele trouxesse os técnicos mais legais de cada área,
não necessariamente os melhores. Com os mais legais, criamos o clima
do trabalho. (Renato Ciasca)
- Eu e o Beto trabalhamos juntos há 20 anos: somos sócios,
amigos, temos a mesma filosofia de vida. Fomos parceiros no curta Aurora.
Depois seguimos trabalhando sempre muito próximos, ele dirigindo, eu
produzindo. A colaboração de Gustavo Spolidoro na produção
permitiu essa tranqüilidade de fazer esse trabalho de direção
em conjunto. (Renato Ciasca)
- Uma coisa legal na equipe montada pelo Gustavo é que a produtora
de elenco foi uma atriz, a Vanise Carneiro - por favor, nada contra produtoras
de elenco, só que neste caso o fato dela ser atriz ajudou muito. Até
porque a gente não escala elenco com teste, e sim com entrevista. A
idéia de meus filmes é buscar o ator que passe a vivência
do personagem. (Beto Brant)
- Escolhi Churras no canil entre 300 cachorros, porque ele era o único
que estava virado pra rua. (Júlio Andrade)
- O cão não foi dirigido, tudo o que você vê ele
fazendo na tela é espontâneo. O adestrador era pra dar toques
ao Julinho de como se relacionar com um cão de rua, que é muito
carente de afeto. (Beto Brant)
- Partimos do roteiro para três semanas de ensaio, que o Renato filmou
com uma câmera digital. Fomos improvisando, achando a história
aos poucos, movimentos de câmera também. Não seguimos
totalmente o roteiro. Cenas nasceram neste processo, o surto do Ciro, a hora
em que eu canto. (Tainá Muller)
- A opção é buscar ao equivalente, em imagens, à
obra literária. Você não vai definindo tudo, você
vai revelando aos poucos. Não nos interessou mostrar o trabalho da
modelo, o motoboy andando de moto. Interessa mostrar o lado afetivo das pessoas.
Acho legal a fluidez, não deixar a cena com início, meio e fim;
deixar as coisas meio no ar, as pessoas fazendo esses nós. (Beto
Brant)
- A gente não sabe o filme que tá fazendo no início,
vai descobrindo ele no processo. Num dos primeiros dias de filmagem, a produtora
Camila Groch ficou horrorizada, porque em quatro horas a gente não
tinha nem aberto a câmera ainda. Começamos a fazer isso n'O
Invasor e nunca atrasamos um dia de filmagem. (Beto Brant)
- Tivemos três semanas de filmagem noturna, das 6 da tarde às
6 da manhã. (Bianca Villar, produtora)
- Filmamos seis semanas, depois nos cortes tiramos quase uma inteira - saiu
toda uma seqüência da infância do Ciro. (Beto Brant)
- As cenas mais íntimas entre Ciro e Marcela foram facilitadas pelo
respeito com que Beto e Renato trataram os atores. A gente se sentia levada
no colo. A Bianca também foi impecável em atender o que a gente
precisava; quando eu lembrava de pedir algo, ela já tinha providenciado.
Isso fez com que a gente desse o melhor resultado possível. (Tainá
Muller)
- Fazer este filme foi uma ótima experiência, Beto Brant é
um diretor de atores maravilhoso. (Mirna Spritzer, atriz que faz a editora
que propõe uma tradução recusada por Ciro)
- A aposta num "não-ator" neste filme foi com o personagem
Elomar; a Tainá tem trabalhado como modelo e já estava estudando
interpretação quando filmamos. Mas o Elomar podia cair num clichê.
O Luiz Carlos Vasconcelos Coelho foi funcionário público, é
maratonista, cata cacos na rua, faz mosaicos e cola em fachadas de casas de
periferia. Vimos um quadro do Coelho no Atelier das Massas, fomos atrás
dele. Boa parte do personagem do porteiro é invenção
dele, como o relato sobre o nascimento do Lupicínio Rodrigues, um dia
de chuva, a parteira chegando de barco. Ele é muito tímido;
agora, um ator que vai fazer um tímido não faz o tímido
que o Coelho fez. (Beto Brant)
- Foi um presente ter feito esse filme já na estréia. Pulei
algumas etapas como atriz que sei que não atingiria se fizesse só
trabalhos caretinhas. (Tainá Muller)
- Toda a equipe e elenco se expressaram no filme. O montador Manga Campion
não leu nem o livro nem o roteiro. Acompanhou toda a filmagem e viu
todos os vídeos da fase de ensaios. Ele começa fazendo clips
e vai entrando no clima do filme aos poucos. (Beto Brant)
- Pros padrões atuais do cinema brasileiro, nosso orçamento,
de 2 milhões, pode ser considerado baixo.(Bianca Villar)
- Minha relação com o Marçal Aquino é muito criativa.
Meu próximo filme será baseado no último livro dele,
Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios,
lançado pela Companhia das Letras em 2005. Nos cafés na casa
dele, praticamente acompanhei esse livro conforme ele ia escrevendo. (Beto
Brant)
- A gente quer sempre manter a integridade artística, não negociar
nada por causa de financiamento ou distribuição. A gente faz
o filme com a maior liberdade possível, por um resultado que a gente
se orgulhe, e depois vai buscar o mercado. Coisas que dão sentido à
tua vida não podem ser negociadas. (Beto Brant)
(Quer aprofundar esses diálogos? Então leia o Texto dos Diretores,
em que os próprios Beto Brant e Renato Ciasca contam outros detalhes
de seu processo criativo.)
Cão sem Dono já estréia premiado: o filme recebeu
o Prêmio Especial da Crítica e os troféus Calunga de melhor
longa e melhor atriz para Tainá Muller, no 11º Cine PE, realizado
no Recife em abril. Tainá voltou a ser premiada em maio no 14º Festival
de Cinema e Vídeo de Cuiabá.
Links:
- Hotsite
filme Cão sem Dono no site da Drama Filmes
- Site do lançamento
do filme em Porto Alegre
Copyright
© 2007 Brasileirinho Produções Ltda.