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CÃO SEM DONO: TEXTO DOS DIRETORES

Por Beto Brant e Renato Ciasca

 

Durante o lançamento de O Invasor em Porto Alegre, em 2002, fomos apresentados pelo Marçal Aquino ao Daniel Galera, que nos mostrou seu livro Dentes Guardados. Em 2004, quando o Galera publicou Até o Dia em que o Cão Morreu, Guilherme Pilla, seu sócio na Livros do Mal, nos entregou um exemplar do livro recomendado pelo Marçal, que já o tinha lido em primeira mão.

Sempre tivemos uma curiosidade por Porto Alegre e esta era a chance, o pretexto para uma viagem de fôlego. Pedimos o texto para o Galera e, em 2005, fomos a Porto fazer uma leitura do livro com ele e o Marçal, à procura de intimidade com as intenções do autor e também para conhecer a cidade sob o ponto de vista dele. Uma curiosidade sobre o roteiro é que incluímos o conto "Natureza-Morta", do livro Dentes Guardados, na sua versão final.

Junto com a Bianca Villar, nossa sócia na Drama Filmes, voltamos a Porto Alegre em 2006 com o roteiro pronto e com o financiamento do filme totalmente levantado. Já conhecíamos o Gustavo Spolidoro, então nos associamos com a sua produtora Clube Silêncio. O Gus assumiu com a Bianca a produção executiva do filme e foi ele quem escalou praticamente toda a equipe. Os primeiros a chegar foram o diretor de arte Luiz Roque e a diretora de produção Camila Groch, que tinham acabado de fazer o curta Início do Fim, do Gus. Em seguida, veio a produtora de elenco Vanise Carneiro, atriz de vários curtas da Clube, como Messalina, de Cristiane de Oliveira. Vanise nos apresentou três atores do grupo Depósito de Teatro: o Julio Andrade para o protagonista, o Roberto Oliveira e a Sandra Possani para serem os pais do personagem Ciro. Naquele momento, eles estavam em cartaz com um espetáculo genial sobre o dramaturgo gaúcho Qorpo Santo.

Na Clube, assistimos ao curta 5 Naipes, de Fabiano Souza, e nele conhecemos a Jana (Janaína Kremer). Fomos ao teatro vê-la em Vladimir e Estragon e após o espetáculo a convidamos para ser a Ana, a mulher do motoboy Lárcio. No momento da filmagem, ela estava com 9 meses de gravidez, a poucos dias do nascimento do Francisco, citado no diálogo do filme. Participou da cena, como filho do casal, seu outro filho de 2 anos, José, o menino que viaja no aquário enquanto os mais velhos viajam nas fotografias do mural.

Chegamos então ao superlativo Marcos Contreras, o motoboy Lárcio do filme, por meio de uma série de curtas de alunos da Unisinos que a Vanise nos mostrou. Esse cara é de fato fora de série tanto como ator como diretor de um dos curtas, um plano-seqüência de trinta e poucos minutos. Nos ensaios, Contreras revelou sua tremenda capacidade de improviso. Marcou Cão sem Dono com seu bom humor absurdo.

Na rua Riachuelo, no centro de Porto Alegre, íamos freqüentemente ao restaurante Atelier de Massas, que tem como um de seus proprietários o artista plástico Gelson Radaelli. Ele mantém uma coleção de quadros seus e de amigos cobrindo as paredes do restaurante. Uma dessas obras, pintura sobre jornal, insinuava aquelas descritas no livro do Galera, feitas pelo porteiro do prédio. Assim conhecemos Luis Carlos Vasconcelos Coelho, que nos convidou para ir a sua casa e nos mostrou uma grande quantidade de pinturas e esculturas. Sua maneira poética de explicar o mundo e sua timidez nos pareceram muito autênticas e sinceras, e queríamos isso dentro do filme. Pedimos que ele lesse o livro e o roteiro e que criasse as pinturas originais para o filme. Não intervimos nas suas pinturas, que estão no filme conforme sua interpretação do texto. Acompanhado do diretor de arte Luiz Roque, Coelho decorou a casa do porteiro com suas obras e objetos. Levou com ele aquele que considera o maior artista do Rio Grande de todos os tempos: Lupicínio Rodrigues.

Durante os encontros com o Galera, conhecemos sua namorada, Tainá Muller. E por sua proximidade com o livro e sua experiência como jornalista e modelo, convidamos para que ela fizesse assistência de direção. Quando fomos para Porto Alegre com a Tainá e começamos a fazer entrevistas para o papel de Marcela, descobrimos que seria impossível encontrar alguém melhor do que a própria Tainá para o papel. Ela confessou seu desejo de interpretar para a Bianca, que nos trouxe a notícia. Tainá é muito determinada e levou a sério essa oportunidade. Buscou o máximo de informações no texto e em pesquisas. E jogou-se com muita intuição no papel de Marcela.

Procuramos a locação do apartamento do Ciro no centro de Porto Alegre, região muito utilizada por estudantes vindos do interior do Rio Grande do Sul. O produtor de locação, Leandro Wengrover, o Lecão, encontrou um apartamento na Rua Borges de Medeiros. Faltando um mês para o início das filmagens, o Julio se mudou para lá com o cachorro Churras, adotado no canil público. E, distanciando-se dos amigos e familiares, aos poucos foi se transformando em Ciro. Provou uma solidão aguda e leu muitos russos e existencialistas. Foi contra sua natureza, mas essencial para o Ciro que resultou na tela.

Julio passou a viver no apartamento com o cão e, juntos, descobriram os arredores do prédio. Nas filmagens, não pedimos nada ensaiado para o Churras. Quando o Ciro passou mal no banheiro, o cão pensou que era o Julio que passava mal. Furou o bloqueio da equipe e foi socorrer o amigo.

O apartamento do Ciro foi alugado de uma família que deixou o imóvel por três meses. Retiramos todos os pertences e pintamos com a cor adequada para o personagem. O Julio entrou nele vazio e aos poucos foi mobiliando com seus próprios pertences, orientado pelo diretor de arte Luiz Roque.

Nas três semanas que antecederam o início das filmagens, ensaiamos com os atores nas locações. Nossa intenção era fazer com que eles encontrassem os personagens. Não queríamos nos prender aos diálogos do roteiro e percebemos que o elenco poderia nos surpreender com o acento e o universo gaúcho. Fomos para a filmagem e reinventamos o roteiro a partir dessa vivência.

O fotógrafo Toca Seabra e o montador Manga Campion foram as duas únicas pessoas da equipe que não eram de Porto Alegre - com eles, tínhamos feito O Invasor. A maior parte do filme foi rodada com lâmpadas normais, colocadas na decoração do set. Às vezes, havia uma única fonte de luz, como na cena em que o Ciro quebra o abajur na parede. A cena foi improvisada e o ator não sabia que o abajur era a única fonte. Nós não cortamos a câmera e o ator permaneceu atuando na escuridão. Quando o acaso conspira a favor. Mais uma vez vamos dizer o que está explícito na tela: a condução do movimento da câmera e a sustentação de quadro do Toca são coisas de mestre.

E por fim um comentário sobre a montagem. Assim como no filme O Invasor, o Manga acompanhou as filmagens como operador de vídeoassist. Além de ver de perto o que buscávamos no set, ele vivenciou todo o entorno que tentamos imprimir no filme. Conheceu a equipe e sentiu a temperatura da cidade.

Em São Paulo, a poucos dias de começar a montagem, o Manga se acidentou de carro e foi obrigado a ficar em repouso, sem andar por três meses. Provou da mesma solidão aguda que o Julio no apartamento. Dormiu do lado do computador e ficou íntimo de cada fotograma. Conseguimos tirar do material um filme sobre um cara com a alma doente, que se redime quando alcança o estado de sentimento de amor por uma mulher.

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