Por Fabio Gomes
O Encontro de Cartunistas realizado durante o primeiro
Fórum Social Mundial (Porto Alegre, 2001) enfrentou dificuldades de divulgação
e financeiras (um corte de verbas determinado pela Casa Civil do Palácio
Piratini impediu a vinda de debatedores estrangeiros), mas soube superar isso
para se tornar a maior reunião de cartunistas brasileiros já realizada
em Porto Alegre e gerar um debate muito lúcido da situação
atual, justificando plenamente sua inclusão como evento paralelo do Fórum.
Uma queixa freqüente de cartunista é "não
consigo publicar" ou "em vez de me darem espaço no jornal X,
dão destaque para Fulano ou Beltrano". Fulano ou Beltrano, no caso,
seriam desenhistas piores que o queixoso, artística ou ideologicamente.
Os cartunistas-debatedores foram a fundo nesta questão, que, como veremos,
também interessa os não-cartunistas.
Gilberto Maringoni,
autor de Romeu, o Descasado, vê uma das causas para o fenômeno
no fim da censura prévia à imprensa em 1975, em plena ditadura militar.
"A primeira privatização que ocorreu no Brasil foi a da Censura",
afirma. Edgar Vasques, na época do Fórum responsável pelas
ilustrações das campanhas da Prefeitura de Porto Alegre, concorda:
"Quem censura hoje é do ramo: é o dono do jornal". Autor
do Rango (que causou a apreensão de uma edição do
Pasquim nos anos 70), Vasques enxerga a situação atual pior
do que na ditadura: "Quando o militar impede a publicação da
verdade discordante, ele pelo menos admite que há outra verdade. Hoje não,
o editor te diz que só há uma verdade: o mercado". Caco Xavier,
então editor de entrevistas da revista Bundas, complementa: "Você
pode dizer o que quiser, desde que alguém queira publicar."
Um
dos jornais campeões de censura interna é O Estado de São
Paulo. Santiago, autor do Macanudo Taurino, foi contratado pelo jornal
no início dos anos 90, mas em nove meses, não chegou a ter dez trabalhos
publicados: "Quando eu mandava uma charge bobinha sobre o Collor, saía.
Se era algo que questionasse, eles diziam que tinha dado problema". Santiago
desistiu para não ficar conhecido como "um desenhista bobalhão".
Ao final da década, Rodrigo Rosa, titular do Diário Gaúcho,
venceu um concurso para escolher novos chargistas para o Estadão
e continua aguardando o espaço prometido: "Um dos outros vencedores
conseguiu publicar duas ou três charges, mas ao longo de vários meses.
Se o desenho é muito crítico, eles dizem que não tem nada
a ver ou que não entenderam e não publicam". Para Rodrigo,
o Estadão quer charges de direita!
Esta censura velada
já custou o emprego de Lor no jornal O Dia. Desenhando na época
deste encontro no Diário Popular de São Paulo, Lor lamenta
esta mentalidade, que mantém afastados da grande imprensa valores como
os gaúchos Santiago e Edgar Vasques. Este revelou haver um pensamento entre
alguns colegas, algo como "se não te publicam, é porque o teu
trabalho não é bom". Maringoni relaciona a censura interna
à onda do pensamento único, cujo auge identifica no início
do governo Fernando Henrique. Na ocasião, ele trabalhava na revista Atenção,
de grandes reportagens sobre temas como a guerrilha zapatista e os 60 anos da
Guerra Civil Espanhola. A publicação não foi além
do número 10. "Quem fosse contra o pensamento único naquela
hora era chamado de maluco", recorda Maringoni. "Hoje, com o desencanto
que as pessoas já experimentaram, é possível fazer um Fórum
Social Mundial e um jornal como a Zero Hora se vê obrigado a dar
14 páginas para o evento numa edição de domingo sem conseguir
falar mal", festeja. Mesmo com uma abertura maior hoje para vozes discordantes,
os debatedores deploram que isso não se reflita na imprensa. "Só
temos no Brasil a Caros Amigos, a Carta Capital e a Bundas
indo contra o pensamento dominante", lamenta Caco Xavier.
Caco
ressalta que "vivemos numa sociedade utilitária, a pessoa vai pesquisar
o que dá certo para investir naquilo, mesmo no humor". Lor acredita
que é essa visão que gera o humor cínico que caracteriza
(e de certa forma garante o sucesso) do grupo Casseta e Planeta na TV Globo.
Claudius, um dos fundadores do Pasquim, aprecia a qualidade dos textos
para O Globo do pessoal do Casseta e Planeta, mas não assiste
o programa de TV - "acho ruim". Lor considera o humor do grupo como
uma renovação - "para pior". O grande problema, concordam
Vasques, Santiago, Lor, Caco e Maringoni, é que o grupo trata da mesma
forma Fernando Henrique e o MST, Sebastião Salgado e o PFL. "Tratar
da mesma forma os desiguais é mostrar que você não tem senso
de justiça, o que gera o cinismo", opina Maringoni, ao que Caco acrescenta:
"O humor que eles fazem é igual ao de adolescentes conversando no
bar do colégio. O problema é que eles não têm nenhuma
posição ideológica sobre o que abordam no programa".
Mas, como lembra Santiago, "nunca atacaram o Roberto Marinho nem o Antônio
Carlos Magalhães!".
Se a grande imprensa não dá espaço (Maringoni cita que, ao contrário da européia e da americana, a imprensa brasileira só representa a elite), uma saída seria os próprios cartunistas fazerem suas publicações. Caco pensa que não é bom o artista ter que ser também editor, produtor, vendedor de anúncio. O melhor seria uma associação entre os cartunistas, pensa (mas a GRAFAR, por exemplo, existe há mais de uma década e não tem uma revista). A questão, de acordo com Caco, sempre esbarra na distribuição. Outra possibilidade abordada seria os cartunistas explorarem mais as histórias em quadrinhos, que, ao contrário da charge, não dependem exclusivamente dos jornais para chegarem ao público. Lor, com certo desencanto, não crê na possibilidade de os quadrinhos trazerem algo novo, pois já teriam atingido seu limite artístico. Ziraldo e Edgar Vasques discordam, acreditando que existe espaço para um quadrinho adulto, bem produzido. Mas Ziraldo concorda em parte com Lor: como comunicação de massa, as histórias em quadrinhos já eram. Vasques vê a solução em o quadrinho se assumir como literatura e disputar espaço nas livrarias com os livros de texto.
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