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VERGARA, FUGINDO DO TÉDIO
EM BUSCA DO CALAFRIO DA DESCOBERTA

Por Fabio Gomes

 

(Trechos da palestra proferida pelo artista plásico Carlos Vergara em 17 de julho de 2003, na Sala Oeste do Santander Cultural, Porto Alegre)

"A exposição Viajante é importante para eu rever tudo. Há um fio condutor comum em todo meu trabalho, mas as obras são compartimentos estanques. Não quero me repetir. Tive uma vida nômade, meu pai era reverendo protestante. A exposição iniciar no Rio Grande do Sul é uma forma de carimbar minha certidão de nascimento.

Fui expulso de três escolas, só me achei no Colégio Brasileiro de Almeida, da família do Tom Jobim, onde havia professores de arte. A partir do que aprendi ali, comecei a fazer jóias, era importante para ter uma renda e agradar às meninas. Ter sido artesão é determinante no meu trabalho. Em cada obra, minha mão está lá. No artesanato, predomina a tarefa; na arte, o pensar. O artesanato pode entrar na arte, mas é diferente. Minhas jóias foram aceitas na Bienal de São Paulo, me assustei.

Depois procurei Iberê Camargo, que era generosíssimo. Me aceitou no atelier por 3 anos. Eu fazia esporte, Iberê achava um absurdo, uma contradição. Eu fazia aula com ele até umas 19h30, depois saía para o meu treino.

Eu não tinha rumo. Era a época do golpe de 1964. Fiz escola técnica a conselho dos professores do Colégio Brasileiro de Almeida, eles achavam importante para ter uma profissão. Depois, se pudesse, poderia vir a faculdade. Passei num concurso, trabalhei na Petrobrás de 1959 a 1966. Aconselho o artista a ter emprego para poder fazer o que quiser, artista não pode ser escravo do mercado. Meu trabalho é um exercício de liberdade. Primeiro o artista trabalha para si mesmo, depois para os outros. Os outros podem até gostar, mas às vezes o artista se cansa daquilo que está fazendo. A arte foi feita para fugir do tédio.

Colorir é cobrir de cor uma área, pintar é fazer surgir alguma coisa na tela. O trabalho sempre te devolve o que você fez. Não gosto muito do que vejo em arte, mas defendo o direito da pessoa fazer o que fez. O que está na tela é um pretexto para catalisar áreas sutis no espectador. O olhar é o menos poético dos sentidos, diferente do ouvido. As artes plásticas são uma forma de educar poeticamente o olho. Quero fazer algo que, sendo cotidiano, surpreenda o meu espectador. A pretensão do artista é tentar captar a energia dispersa que se tem.

Nos anos 60, as artes dialogavam entre si. Eu fui chamado para fazer cenografia de teatro, capa de livro, cartaz de filme. A ditadura separou tudo. O trabalho final da faculdade de Arquitetura era em grupo, as pessoas discutiam tudo, hoje é individual. Desde o início, me propus a usar todos os recursos visuais à disposição, incluindo a linguagem de história em quadrinhos e da propaganda.

O Empilhamento e o Berço Esplêndido foram refeitos agora, na época eu morava em quitinete, não tinha onde guardar aquilo, joguei fora. Mas vi que os trabalhos não estavam datados, seu sentido continuava atual.

Nos anos 70, começo a olhar para fora. Encontrei o carnaval como um ritual de marcação do tempo. Uma festa enorme, anônima. No Cacique de Ramos, 7 mil pessoas decidem ficar iguais, quando a sociedade empurra para a individualidade. E todos são caciques, não há índios.

A fotografia ajuda a trabalhar. Dürer usava espelho, Ingres usava câmara escura. O desenho para mim é uma coisa difícil, até hoje. É um esforço. O Roberto Magalhães olha pra você, faz um traço aqui, outro ali, num minuto tá pronto teu retrato. A foto democratiza a possibilidade de captar o fazer artístico. [Hoje] O Photoshop permitiu a muitos artistas que não poderiam ser artistas que eles fossem artistas.

Os desenhos que fiz nos anos 70 são a partir de projeções de slides, projeto a foto e coloco um traço desta aqui, outro daquela ali. Não há falsidade, é o uso de um método. Não saí dizendo que sei fazer retratos, reproduzi uma foto. Mas cansei de desenhar. O desenhão de 20 metros, que foi pra Bienal de Veneza, foi um exorcismo, o último que fiz. Tava chato.

No final dos anos 70, fiz a serigrafia da grade. A grade representa uma membrana imantada pelo confronto de olhares. A série dos Losangos vem daí. O ideal é que não houvesse tela, que a membrana-grade pudesse ficar no ar, se pudesse pintar na frente e atrás. Minha arte nos 20 anos anteriores era muito literária, a pintura estava ali, mas o real motivo tinha ficado para trás. A membrana-losango me ajudou a fazer algo mais artes-plásticas, por 10 anos. Foi quando vendi mais, tive mais mercado. Entrei numa armadilha, as galerias pediam e eu ia fazendo. Era um bolero - dois pra lá, dois pra cá. Mas não havia mais invenção. Não havia mais o calafrio da descoberta.

Recebi um convite da Varig, no início dos anos 70, para fazer uns painéis para a loja de Paris. Fui a Minas Gerais pesquisar com Franz Krajcberg, em Itabirito, Diamantina. Krajcberg mora lá, dentro duma gruta. Fiz em Paris um Baleiro com terra, depois mais quatro trabalhos, inclusive uma escultura para um condomínio. Anos depois, um novo síndico resolveu tirar aquilo, jogaram fora minha escultura. Mas não consegui produzir mais nessa linha, a fonte secou.

Em 1989, veio um convite da Bienal de São Paulo, e eu resolvi mudar. Peguei telas e Cascorex e voltei a Minas. Peguei uma tela e imprimi nela os pigmentos de uma parede. Tive aí a sensação do que Marcel Duchamp fez quando colocou uma roda de bicicleta no museu. O deslocamento do local esperado criando novos sentidos para o objeto.

Quando chego lá em Minas, os operários me cumprimentam, perguntam: "Ô, seu Vergara, veio sujar pano?" Vou a Minas uma vez por ano, continuo com essa adrenalina. Tenho inserido imagens, alguma geometria, nos Fornos mais recentes. O forno, para mim, é transformação.

Amigos meus judeus não conseguiram ver os Fornos sem se lembrar do holocausto. Vejam como a imagem tem o poder de evocar áreas sutis. Por isso, não quis que a capa do meu livro, que sai agora, durante a exposição, tivesse um Forno na capa. Não quero que futuramente um judeu pegue o livro e se incomode. Tive que brigar com a moça que cuidou da parte gráfica. Ela queria manter e tal. Aí perguntei de quem era o nome que ia na capa, não era "Carlos Vergara"? Eu posso escolher a capa do meu livro, ou não?

A partir do fim dos anos 80, começo a ser o Viajante. Levo oito horas de carro até Minas, em contato com a paisagem, com esse exterior. Chego lá, me interiorizo. As tintas estão na natureza mineira, todas, menos o azul. Mestre Ataíde, artista barroco do século XVIII, já usava. Acho interessante recuperar esse elo com a história da pintura brasileira. Não é preciso comprar tinta nenhuma em Nova York, naquelas grandes lojas de vários andares. Eu só preciso terra e Cascorex. Vários restauradores já me disseram: "Vergara, nunca recebi um quadro teu pra restaurar". É o Cascorex.

Com a monotipia, consigo realizar o velho sonho de pintar por trás da tela. Quero criar uma superfície de desenho tenso. A monotipia é o gesto artístico mais arcaico, vem do gesto de imprimir a mão.

Risco é oportunidade. O campo da arte é se fornecer problema para ser resolvido, é nesse campo que há possibilidade de invenção. O resto é artesanato - com todo o respeito que tenho pelo artesanato. Arte é uma forma que a gente tem de comungar.

O artista gaúcho que sai do Rio Grande do Sul é maltratado quando volta - vejam Iberê Camargo, Elis Regina. Houve artistas que questionaram minha escolha num concurso para fazer o painel do novo aeroporto, alegando que eu não seria gaúcho. Ué, minha certidão de nascimento é de Santa Maria! Quando me mostraram o local do painel, vi que ele recebia sol o dia inteiro, além de haver uma estrutura de sustentação que projetava uma sombra nele. Eu não podia ignorar isso e fazer uma coisa que brigasse com essa situação. O painel é uma grande elipse, aproveitando esses desenhos que são projetados na parede. Se houvesse mais tempo, poderia ter colocado um relógio de sol. O trabalho não é um mapa-múndi, como alguns pensam. É uma elipse. O espaço é de 36 metros por 5 metros, eu não podia ser prolixo, era pra bater o olho e entender. Tem gente que, do aeroporto mesmo, me liga para comentar o painel. Acho que Mauro Fuke resolveu bem o outro painel, uma coisa difusa sobre o gauderismo.

Os lenços que nosso grupo de artistas fez nas Missões remetem ao Sudário, à imagem da Verônica. Vou fazer novos trabalhos a partir da experiência nas Missões. Tenho quatro painéis já iniciados lá no Rio."

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