Por Carmen Maria Monteiro
A maior exposição fotográfica a céu aberto do mundo
deu o que falar. O fotógrafo pernambucano Sérgio Guerra esperava
despertar a consciência democrática e fazer Salvador comemorar
com orgulho sua raiz afrodescendente, acordando a sociedade civil para a verdadeira
cara da cidade. O projeto Salvador Negro Amor uniu arte, cultura e cidadania,
através de exposição, CD, criação de ONG,
site e uma escola para alfabetizar adultos na Feira de São Joaquim. A
Maianga Produções Culturais, realizou uma exposição
de mais de 1.500 fotos no período de 8 de janeiro a 16 de fevereiro de
2007, em espaços fixos como fachadas de prédios, painéis
e outdoors em diversos bairros de Salvador, considerada a cidade com maior população
negra fora do continente africano. As fotos são de pessoas comuns, de
todas as atividades cotidianas, todas negras; alguma foram tiradas em Angola.
A exposição causou alegria e surpresa para as pessoas retratadas
com a simplicidade dos seus sorrisos. Entretanto também gerou muita polêmica
em Salvador. Alguns críticos consideraram que a exposição
foi de mau uso do dinheiro público, ou seja, não houve transparência.
Comentou-se também que Guerra, proprietário da Maianga, estaria
usando a mostra para se autopromover. Outros artistas questionaram a utilização
de tantos painéis por uma só pessoa. Também não
teriam sido reveladas as dificuldades dos negros moradores da periferia, além
de se ver um desrespeito no fato de uma exposição individual receber
tanto dinheiro numa cidade onde a cultura vive de migalhas etc.
Talvez se as fotos fossem de pessoas famosas, artistas, modelos e jogadores famosos, a exposição não teria sido polêmica. Certos indivíduos não suportaram ver a luz do sorriso alegre dos negros descendentes dos que foram trazidos do continente africano a partir de meados do século 16, nos porões imundos dos navios negreiros. Alguns deles pertenciam à realeza africana; todos foram vendidos como escravos, sofreram muito nas senzalas, ficaram doentes, foram maltratados, humilhados, submetidos a trabalhos pesados e torturados. Agora seus descendentes não podem fazer parte de uma megaexposição ao ar livre em Salvador, porque muitas pessoas não querem ver a alegria da cor da cidade, cuja população é, em sua maioria, afrodescendente.
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