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CARLOS VERGARA:
DISPERSÃO E MÉTODO

Por Fabio Gomes

 

(Trechos do debate entre o artista plástico Carlos Vergara e o crítico Paulo Sérgio Duarte ocorrido no Santander Cultural, Porto Alegre, em 24 de junho de 2003. Outros trechos do debate foram incluídos no texto A Influência do Cacique de Ramos na Obra de Carlos Vergara.)

PAULO SÉRGIO DUARTE - A obra de arte e o artista são o fundamental na arte. As instituições culturais, os críticos, a história da Arte são periféricos. Hoje, parece haver uma inversão, como se o artista dependesse das instituições e não o contrário.

CARLOS VERGARA - Opinião de crítico é importante, para que o artista possa ser levado a rever, por outro olhar, coisas que colocou em sua obra por instinto, sem se dar conta do que fazia.

DUARTE - Hegel já falava na morte da arte no século XIX - haveria lugar para a arte no mundo de então? E dali pra frente? O assunto voltou à tona reiteradas vezes, principalmente em relação à pintura. Os construtivistas russos decretaram a morte da pintura, há até um livro denominado O Último Quadro. Já vi 3 assassinatos da pintura no século XX. Não seria mais possível pintar, mas ninguém se lembrou de avisar os pintores... Qual é o estatuto da pintura na arte contemporânea? Hoje há outras formas de atuação pictórica, como a manipulação genética de um coelho com genes de água-viva, o que tornou o coelho fosforescente. Exposto numa bienal, o coelho poderia percorrer uma sala .(...) Antônio Dias e Rubens Gerchmann (companheiros de geração de Vergara, na exposição Opinião 65) usavam em seus trabalhos elementos de histórias em quadrinhos ou outras manifestações "modernas". Mas Vergara pintar a óleo era chocante! Mas foi o que os europeus fizeram nos anos 70, com o neoexpressionismo italiano. Vergara já fazia isso em 65. (...) As pinturas recentes de Vergara retomam a expressividade e o movimento intenso do início da carreira. Tudo se dá dentro da obra. As cores de Vergara são extremamente narcisas, não são monásticas. São cores vedetes, com as pernas de fora. A pintura atravessa toda a obra de Vergara, mesmo no que ele chama apenas de "desenhos" (sobre papel craft, década de 70). As experiências pictóricas feitas sobre o verso do suporte transparente, com a figura invertida (as bolhas), são extremamente datadas. Já suas primeiras pinturas, dos anos 60, poderiam ter sido feitas em 1976, 1980. As experiências nas bolhas parecem trabalhos para reprodução em série, mas são peças únicas - "pintadas à mão". (...) Vergara, como Matisse, não tem vergonha de ser (ou melhor, pintar!) decorativo e bonito. As bocas de forno remetem ao holocausto judeu. A monotipia alia a impressão, vinda da gravura, com a força da cor, que remete à pintura; aliás, Vergara costuma pincelar sobre o impresso. As obras recentes de Vergara mostram que a evolução continua, não dá sinais de estagnação.

VERGARA - Houve um momento, em 69, que fui convidado para fazer painel em Paris, para a Varig. Queria fazer algo bem brasileiro. Fiz pesquisa no Ceará e em Minas, com Franz Krajcberg. Fiz 4 ou 5 trabalhos com pigmentos pesquisados, mas aquilo cansou. Quando deixei das diagonais - achei repetitivo - lembrei dessas pesquisas e de Iberê, que se reinventava a cada trabalho, não se acomodava. As bocas de forno foram o passo seguinte. Amigos judeus fizeram a relação com o holocausto. Minha atuação no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional me levou ao contato com trabalhos do Mestre Ataíde, pintados com óxido de ferro. Tenho que ser alguém do meu tempo, mas não posso fugir à minha história. Não vi nada na arte virtual que não tenha como ponto inicial a velha pintura. (...) Gostei da exposição, era bom reunir tudo para ver se há uma coerência no conjunto da produção.(...) A foto e o vídeo democratizam a expressividade das pessoas, o acesso a produzir algo é mais fácil hoje.(...) A instalação original do Empilhamento tinha 15 bonecos, a daqui tem 40, todos novos.(...) Não gosto mais dos títulos que dei aos trabalhos dos anos 60, ficaram datados, induziam as pessoas a buscar coisas nas obras, nada a ver. Por que o quadro tem que representar alguma coisa, em vez de ser uma grande massa de tinta? Hoje prefiro assinar atrás do quadro, minha assinatura é uma garatuja que não tem a ver com a obra pictórica. O olhar é o menos instintivo dos sentidos.

DUARTE - Títulos em quadros induzem a percepção. Deixar sem título, ainda mais numa abstração, é uma coisa do século 20.

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